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Um dos açudes mais afetados no Estado do Ceará é o Quixeramobim, no Sertão Central, que foi construído em 1960, com capacidade para 54 milhões de metros cúbicos. Estima-se um índice de assoreamento em (Foto: Eduardo Queiroz)

Assoreamento reduz volume dos reservatórios no Ceará.

Na seca, a sedimentação das barragens torna-se mais preocupante, pois reduz a capacidade de armazenamento.

06/03/2017

Iguatu. A possibilidade de que a atual quadra chuvosa não consiga reverter o quadro de perda de reservas hídricas dos açudes no Ceará desde 2012 traz preocupações para os gestores públicos e os habitantes do Estado.

O nível dos reservatórios é acompanhado diariamente, mas essa medição pode estar comprometida. O Estado pode não dispor da quantidade esperada no chamado volume morto, a água mais profunda dos açudes, dificultando ainda mais o abastecimento dos centros urbanos por causa do processo natural de assoreamento.

Nos últimos dois anos, a crise de desabastecimento é tema diário, mediante o quadro de agravamento de seca. A população pressiona o governo para preservar reservas e fazer melhor distribuição de água. Ao determinar a liberação de água, os técnicos da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) estimam que determinado volume armazenado atenderá à demanda de consumo por certo tempo. Mas fica a dúvida sobre se a estimativa é 100% correta.

A perda das reservas hídricas trouxe ao centro dos debates a necessidade de se saber o real volume armazenado nos açudes. Nos últimos dois anos, a Cogerh realizou estudo de batimetria em vários e, segundo pesquisadores, os dados atualizados trouxeram surpresas para o órgão, ou seja, havia menor quantidade de água do que o esperado. A causa: a sedimentação das barragens provocada, ao longo dos anos, pelo assoreamento.

De acordo com o professor de Engenharia Agrícola do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC), José Carlos de Araújo, o nível médio de assoreamento é de 2%, por década, dependendo da região onde o açude está localizado. "Parece pouco, mas é representativo, em particular no período de escassez de água que enfrentamos. Quando precisamos da água no fundo, da última reserva, está bem menos do que se esperava porque há mais terra", explica.

Perdas

Da chuva, cerca de 10% chegam aos reservatórios, que perde parte por evaporação, infiltração e sangria. "Apenas 3% formam a reserva, a disponibilidade hídrica. Se o reservatório estiver assoreado, a quantidade de água será ainda menor", detalha. De acordo com o professor José Carlos Araújo, no Ceará, o problema ainda é mediano, mas no Centro-Oeste, no Cerrado, é considerado grave.

Na avaliação dos pesquisadores do tema, no período seco, o processo de assoreamento ou sedimentação das barragens torna-se mais preocupante, pois reduz a capacidade de armazenamento de água e regularização da bacia hidráulica para atender à demanda.

"No momento, a situação ainda não é tão grave, mas temos de olhar para o futuro", afirmou o professor Nilson Campos, de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC. Ele indaga: "Como será a quantidade e a qualidade das águas do futuro?". O próprio docente dá uma pista: "poluídas cada vez mais, saturadas, em menor quantidade, redução da capacidades dos reservatórios em regularizar a bacia hidrográfica, com enormes dificuldades para os sistemas de tratamento".

Segundo dados do professor Campos, a média mundial de assoreamento de reservatórios é de 10% por período decenal. No Ceará varia entre 1% a 10%, com taxa média de 2%. "Na verdade, os estudos são poucos sobre a temática", frisa. O docente lembra que, há mais de 12 anos, a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH) iniciou um projeto, com base em exemplo da Paraíba, visando à implantação de pequenas barragens de contenção de sedimentos em áreas no alto das bacias hidrográficas. "Nesses últimos anos, não ouvi falar mais sobre esse plano", disse.

Qualidade

Os professores Nilson Campos e José Carlos Araújo chamam a atenção para o fato de que a sedimentação das barragens não afeta apenas a quantidade acumulada, que se torna menor, mas a qualidade do recurso hídrico. "O assoreamento arrasta não apenas a areia, o mineral, mas vem tudo, agrotóxico e outros poluentes que deterioram rapidamente a qualidade da água", frisou Araújo.

Para os dois docentes, o processo acentuado de poluição das águas nos açudes torna-se atualmente mais grave do que o de perda de quantidade. "O resultado é o impacto na vida da população que vai depender de carros-pipa, de transferência de água, elevando o custo de distribuição", observa Campos.

Vegetação

Após um período de escassez de chuva, a mata fica seca, as folhas caem no solo, mas a Caatinga tem um poder rápido de recuperação, logo nasce capim e a vegetação fica folheada. "A vegetação diminui a energia da chuva, protege o solo de erosão. Quando está escassa, o desgaste é maior e os sedimentos são arrastados para riachos, rios e chegam aos açudes. Dessa forma, nas primeiras chuvas, mais intensas, o processo erosivo é maior", esclarece José Carlos Araújo.

O depósito de sedimentos nos açudes decorre da destruição da mata ciliar, que poderia atuar como um filtro, segundo observa o professor, e da falta de política pública de zoneamento de áreas que deveriam ser preservadas em morros e encostas. "Esses são os dois grandes problemas, causadores da erosão e do assoreamento dos açudes. Esse desgaste também causa perda de fertilidade do solo", frisa.

As ações preventivas estão relacionadas, portanto, com a preservação da mata ciliar e de vegetação de áreas inclinadas e altas, em morros e encostas. O professor José Carlos Araújo recomenda que o governo faça atualização da morfologia dos açudes, por meio de batimetria.

Os docentes observam que o serviço de retirada de areia da bacia dos reservatórios ainda é uma medida em estudo e que não é praticada. "É uma boa solução? Vale a pena? A resposta essas perguntas vai indicar a viabilidade do trabalho. O solo retirado é rico em nutrientes e pode ser usado em áreas degradadas", justifica.

O Diário do Nordeste tentou ouvir a Cogerh e a SRH sobre o processo de assoreamento dos açudes, mas os dois órgãos preferiram não responder às perguntas encaminhadas pela reportagem e, portanto, não informaram os índices de sedimentação e perda de capacidade de armazenamento de água.

Saiba mais

O assoreamento de rios e açudes é um processo natural, lento, progressivo, a partir do depósito de detritos (lixo, entulho, areia e outros materiais) no leito e no fundo da bacia hidráulica dos reservatórios.

No Ceará, o problema é considerado mediano e ocorre com taxa média de 2% por década, mas tende a se agravar no futuro.

Um dos açudes mais afetados é o Quixeramobim, no Sertão Central, que foi construído em 1960, com capacidade para 54 milhões de metros cúbicos. Estima-se um índice de assoreamento em torno de 30%.

Estima-se que o Açude Orós, no Centro-Sul do Estado, construído em 1961, sofra pelo menos 10% de assoreamento, o que significa perda de 190 milhões de metros cúbicos.

O Ceará tem mais de 30 mil reservatórios; 150 são considerados médios e grandes.

O índice de assoreamento do Açude Jaburu I, nos municípios de Tianguá e Ubajara, na Serra da Ibiapaba, é estimado em 18%.