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Parentes, amigos e fãs acompanharam o cortejo que saiu do Centro Dragão do Mar, passou pela BR-116, até chegar ao Cemitério Parque da Paz. (Foto: José Leomar)

Fãs, amigos e familiares dão último adeus a Belchior.

O corpo do artista cearense foi sepultado, ontem, no mesmo jazigo onde estão enterrados os pais dele.

03/05/2017

O início da manhã desta terça-feira, com nuvens e pouco sol, pareceu transmitir o sentimento de todo o cearense com a perda de um de seus ídolos mais rebeldes: Antônio Carlos Belchior. O corpo do compositor e cantor foi sepultado, às 9h50, no Cemitério da Paz, no Passaré, no mesmo jazido onde estão enterrados seus pais.

O último adeus foi bem difícil. Mesmo com a família pedindo um momento reservado, os fãs demonstravam que não queriam se despedir. "Era como um entendimento mútuo, a gente o sabia longe, tinha saudades, mas respeitávamos seu decisão. Com a confirmação de sua morte, não deu para aguentar", emociona-se o aposentado Rômulo Brito. Ele, inclusive, conheceu o artista desde adolescente, no tempo do Liceu do Ceará.

"Era três anos mais jovem do que eu, mas estava na mesma série. Lembro dele inteligente, alegre, amigo. A paixão pela música o acompanhou sempre", conta, entre chorar e acompanhar os presentes nas homenagens prestadas, como cantar o repertório mais conhecido de Belchior, que completou 70 anos de idade em outubro passado e viveu até as derradeiras batidas de seu coração selvagem, no último domingo, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, distante 157 Km de Porto Alegre.

Antes do cortejo em carro aberto do Corpo de Bombeiros até o cemitério, ainda no Dragão do Mar, aconteceu o velório, iniciado às 15 horas da segunda-feira, até às 7 horas de ontem. Ali, no anfiteatro do equipamento, foi realizada uma missa de corpo presente, celebrada pelo frei Ricardo Régis. Muito emocionados, os familiares não conseguiram falar com a imprensa, apenas agradeceram, em nota, todo o carinho demonstrado por todos. Segundo informações da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), 11 mil pessoas passaram pela vigília, sendo oito mil em Fortaleza e três mil no Teatro São João, em Sobral terra natal do cantor.

Quem conheceu Belchior antes da fama, como o caso do médico Manuel Fonseca, mesmo com o choro engasgado, não se cansou de elogiar o antigo colega de faculdade de Medicina. "Fizemos o primeiro ano na mesma turma. Lembro da primeira composição que cantou para a gente embaixo das mangueiras, Na Hora do Almoço. Ali, já dizia que iria abandonar tudo pela música", relembra, enquanto que, como sintonia, as cerca de 300 pessoas presentes à cerimônia, começaram a cantá-la: "Minha mãe me chama, é hora do almoço; Minha irmã mais nova, negra cabeleira; Minha avó reclama, é hora do almoço. Moço, moço, moço, moço, moço, moço...Que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza; Deixemos de coisa, cuidemos da vida; Pois se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida", diz a canção.

A vida passa para todos, chama atenção frei Ricardo, no entanto, a obra fica e com Belchior não é diferente, cujo acervo é reconhecido em todo o mundo e continua encantando até os mais jovens. É assim com a tatuadora Roberta Alves, de 25 anos.

Ela conta que "descobriu" o trovador, como também era conhecido o artista cearense, há uns seis anos e de lá para cá, sua admiração por ele só aumentou. "Meu sonho era ir a um show dele, coisa complicada pela sua decisão de viver isolado". Natural de Fortaleza e morando em São Paulo, diz que assim que soube da morte do ídolo, não pensou duas vezes, veio para a Capital cearense e passou a noite no velório. "É muito difícil dizer adeus", sustenta.

No canto do anfiteatro, o estudante de engenharia eletrônica Rubem Pacelli, de 23 anos, não segura as lágrimas a cada música cantada pelos fãs, e confessa que costuma se intitular como um simples rapaz latino-americano. "Sem dinheiro no bolso e muitos sonhos a realizar" e conta que as composições do compositor cearense falavam por si só. "Tem peculiaridade própria, expressa mensagens. É uma obra muito forte. Por isso mesmo, é eterna", analisa.

Intimidade

A vice-governadora do Estado, Izolda Cela, presente no velório e missa, é conterrânea e fã do cantor. "A gente desenvolve uma intimidade com o artista, com sua obra que nos acompanha a vida toda, como uma trilha sonora. É um sentimento compartilhado por todos os seus admiradores", pontua.

No Cemitério da Paz, mesmo após o caixão baixar à sepultura, sob aplausos, os presentes, com o a chamar pelo ídolo, continuaram a cantar suas músicas e em uma delas, das mais conhecidas, À Palo Seco, marcou um dos momentos mais emocionantes da cerimônia: Se você vier me perguntar por onde andei; No tempo em que você sonhava; De olhos abertos lhe direi: Amigo eu me desesperava. Sei que assim falando pensas; Que esse desespero é moda em 76; E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês".