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Quem plantou cedo, já colheu, mas, quem optou pelo plantio tardio, está amargando perdas, segundo os sindicatos de trabalhadores rurais. (Foto: Honório Barbosa)

Agricultores relatam perdas na safra.

Alguns municípios registraram situações diferentes, dependendo da geografia do local de plantio.

08/05/2017

Iguatu. Mais uma vez, o sertão cearense vai registrar frustração de safra de milho e de sorgo forrageiro na maioria dos municípios. A cultura de feijão de corda também é atingida, mas em menor escala. No campo, já há muito cultivo se perdendo. Quando o plantio precisava de mais água, na época da floração, do pendão e da formação de sementes, as chuvas faltaram, ficaram escassas e irregulares.

O quadro é desolador e representa uma reviravolta na expectativa inicial entre os agricultores e técnicos. As chuvas, mesmo finas, mas constantes indicavam uma elevada safra de grãos para este ano. O clima era de otimismo entre os agricultores. Chegou a segunda quinzena de abril e o 'inverno cortou' no linguajar popular do sertanejo. Houve veranicos, na expressão dos técnicos da área.

Desolação

Agora no início de maio, as chuvas continuam ausentes. É como diz o sertanejo: "o inverno foi embora e deixou a plantação verde, mas murchando e morrendo por falta de água". Ainda não há dados oficiais sobre o índice de perda de safra agrícola de sequeiro deste ano, mas deve ser de pelo menos 50%. Somente no fim de maio, a Ematerce terá relatórios conclusivos em cada município sobre a situação de produção.

A agricultora Maria de Fátima Araújo, da localidade de Pedra Branca, zona rural do município de Pereiro, na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, caminha de um lado para o outro, no roçado de milho e feijão, e lamenta com os olhos cheios de lágrimas: "Vinha tudo muito bem, mas a chuva parou e agora estamos perdendo a roça, as folhas estão murchando".

Na localidade de Juazeirinho, zona rural de Iguatu, uma área de 14 hectares de milho, cultivada sob orientação técnica da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce), com sementes selecionadas, estava se desenvolvendo muito bem, mas, desde o último dia 10 de abril, não chove na roça. Resultado: as molhas estão amarelas, as espigas não se formaram. "Aqui, o prejuízo é total", disse o gerente do escritório local da Ematerce, Erivaldo Barbosa. "O plantio era bonito de ser ver".

O cultivo do grão foi feito de forma associativa entre 16 agricultores familiares. Esperava-se colher 56 mil quilos do grão. "Perdemos tudo e há seis anos sempre tem sido assim", lamentou o agricultor Cícero Adelmo de Souza. "Aqui não há mais o que se fazer, só lamentar o prejuízo, que é enorme".


Os produtores rurais explicam que a planta se desenvolveu, mas a espiga do milho não tem evoluído a contento com a falta de umidade necessária. (Foto: Reprodução)

Situações distintas

Quem plantou em fevereiro já colheu e, para quem cultivou no início de março, a plantação ainda está assegurada, mas quem fez o cultivo tardio, no fim de março ou mesmo em abril, assiste com tristeza à perda da safra. "Tem muita coisa se perdendo e tudo indica que teremos uma seca verde grande", disse o gerente regional da Ematerce, em Iguatu, Joaquim Virgulino Neto. "O inverno vinha bom para a agricultura, mas, em abril, não continuou como se esperava".

No município de Acopiara, na região Centro-Sul do Estado do Ceará, as chuvas foram irregulares e abaixo da média em abril passado. Resultado: elevado índice de perda da lavoura. "Está tudo perdido", disse a diretora de Políticas Sociais do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Acopiara, Rita Araújo. "O milho está pendoando, bonecando, mas, sem água, não se forma a semente".

Já no município de Catarina, localizado no Sertão dos Inhamuns, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), há duas realidades distintas. "Para o lado dos Inhamuns, o quadro é de perda elevada, mas, para a região Centro-Sul, haverá colheita".

Perdas

Em Iguatu, o cenário é de perda do plantio de grãos para quem só plantou em março e abril passados. "Tem muito milho com um metro de altura que não terá como se desenvolver", disse o presidente do STR do Município, Evanilson Saraiva. "Muita lavoura já se perdeu e outras vão morrer nesta semana se as chuvas não vierem".

Crateús também é dividida entre áreas favoráveis e desfavoráveis à agricultura. "Na região do sertão está tudo murchando, se perdendo, mas, para o lado da serra, parte da lavoura será colhida", explicou Francisco das Chagas Matias, diretor do STR.

Várzea Alegre, que é um município que costuma ser beneficiado por boas chuvas, neste ano já registra perda estimada do plantio de grãos em torno de 45%, de acordo com a presidente do STR, Menélia Simão Leonardo. "O inverno estava bom para produção de alimentos, ruim para reserva de água, mas agora ficou tudo desmantelado", disse a dirigente sindical.

Em Tamboril, o quadro não é diferente. Uma parte está segura, mas a maioria da safra de milho e feijão está comprometida. "No geral, a perda pode chegar a 60%", disse o secretário de políticas agrícolas do STR, Marcos Aurélio Santos. Na região, há perda da lavoura nos municípios de Catunda, Monsenhor Tabosa, Boa Viagem, Independência por falta de chuva nas últimas três semanas.

No Sertão Central, em Solonópole, Milhã, Irapuan Pinheiro, Senador Pompeu, Quixeramobim, os agricultores se animaram com as chuvas em fevereiro e em março fizeram plantação de milho em larga escala. "A plantação estava muito boa, bonita, mas quando o milho estava pendoando e puxando a boneca, a chuva faltou", disse Maria Soares Bezerra (Marlúcia), presidente do STR. "A perda vai ser mais de 50%".

Duas realidades

Os municípios do extremo sul do Ceará, no Cariri cearense, Jardim, Jati e Penaforte, registram perda total do cultivo de milho. "Aqui, a safra será zero", lamenta o secretário de Políticas para a Juventude, do STR de Jardim, Antônio dos Santos. "Choveu cerca de 250mm e a lavoura se perdeu".

Já em Santana do Cariri, Barbalha, Crato, Nova Olinda, Assaré, Missão Velha, Brejo Santo e Porteiras, a safra de milho e feijão vem sendo expressiva em comparação com anos anteriores. "Já houve muita colheita", disse o agricultor, Luís Melo, de Assaré. "Aqui, a perda só atinge a plantação de fava", pontuou o presidente do STR de Santana do Cariri, Eudes do Nascimento.

"Infelizmente, o quadro é desolador para quem cultivou o grão tardiamente, em março, acreditando que as chuvas iriam continuar em abril e maio", observou o presidente do Sindicato Rural de Quixeramobim, Cirilo Vidal. O dirigente da entidade sindical avalia que, mesmo em Quixadá e em Senador Pompeu, onde há áreas favoráveis, a situação pode se tornar adversa em decorrência da falta de chuva. "Se não chover logo, muitos plantios vão se perder", frisou. "As chuvas são localizadas, beneficiam umas áreas e outras não em um mesmo município".

Em Lavras da Mangabeira, o gerente do escritório local da Ematerce, Cléber Correia, avalia que haverá perda de 30% para quem plantou mais tarde. "Tivemos três veranicos e em abril choveu muito menos do esperado", disse.

No município de Quiterianópolis, no alto Inhamuns, a escassez de chuva em abril provocou a frustração de safra. Já em Ipueiras, o problema é o ataque de pragas (gafanhoto e lagarta), além da redução das chuvas. O agricultor, Francisco de Assis Alves plantou um hectare de milho, na localidade de Jatobá. "As folhas estão murchando, queimando e estou com medo de perder a lavoura", contou.

Nos municípios de Iracema e de Pereiro há plantio assegurado dentro das bacias de açudes que secaram há mais de dois anos. "As vazantes feitas nos açudes Ema e Adauto Bezerra deram certo, mas as roças em outras localidades estão se perdendo", disse Antônia Anófia de Oliveira, vice-presidente do STR de Iracema.