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A situação hídrica do Município de Granjeiro é delicada. O Açude Junco, responsável pelo abastecimento, chegou ao fim do período chuvoso de 2017 com apenas 7,56% da sua capacidade de armazenamento. (Foto: André Costa)

Granjeiro está a um mês do colapso hídrico.

O racionamento, iniciado no começo de junho, pode não ser suficiente para garantir o abastecimento.

07/07/2017

Granjeiro. O segundo menor município em número de habitantes do Estado está passando por um colapso hídrico. O Açude Junco, que abastece Granjeiro, na região do Cariri cearense, encontra-se apenas com 7,56% de sua capacidade total. De acordo com André Wirtzbiki Alexandre, membro da Associação dos Gestores Ambientais do Estado do Ceará (Agace), "o reservatório só dispõe de água para abastecer a cidade até agosto, no máximo início de setembro".

O operador técnico da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), Francisco Assis Pereira, conta que este é o menor nível do açude desde a sua construção, há 60 anos. "Nunca o vimos tão seco", pontua. Segundo Raila de Alencar, gestora de núcleo da Cagece, para manter o abastecimento da cidade, que conta com 4.600 habitantes, conforme último senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia está operando de forma alternada.

"Antes a vazão era liberada durante 12h por dia. Agora reduzimos para 7h/dia. Uma parte da cidade recebe a água pela manhã e depois fechamos a vazão para abastecer outra parte da cidade", explica. O racionamento, iniciado no começo de junho, no entanto, pode não ser suficiente para garantir o abastecimento da população. "Dos quase cinco mil habitantes, mais de dois mil dependem exclusivamente do Junco, os outros utilizam poços profundos. Então, em agosto ou setembro, o açude já não terá mais como abastecer. É uma problemática que deveria ter sido pensada antes, e não agora, com a corda já no pescoço de muitos", critica Wirtzbiki.

Como medida emergencial, André conta que foram cavados 15 poços nas zonas rural e urbana. O resultado não foi satisfatório. "Desses, apenas dois deram vazão suficiente", lamenta. O membro da Agace ressalta, porém, que uma alternativa são as adutoras de montagem rápida, mas, por possuírem alto custo de implantação, o Município não tem verba para arcar sozinho com o projeto. "A menos de 20Km daqui temos o Açude Quitaius, com mais ou menos a mesma capacidade do Junco e lá está cheio e ocioso. A água não é usada para quase nada. Então poderia sim ser uma solução, no entanto, dependemos da verba do governo do Estado", explica.

Além do diminuto nível do açude, a qualidade da água já não é satisfatória. Moradores reclamam do forte cheiro e da cor esverdeada. "É difícil até para lavar roupa", conta a aposentada Maria das Dores Oliveira, 67. "Eu trabalho lavando e passando roupa. Todo dia, desço até o açude para tentar encontrar um ponto em que a água seja boa. Tem sido difícil", conta Maria Alves de Lima, 52. A poucos metros dali, Silvene Ferreira, 59, também lava roupa. A profissão, diz ela, está ficando insustentável. Entre uma peça e outra, mostra, desanimada, o quanto o nível da água já regrediu. "Esse calçadão era banhado. Os pequenos se divertiam pulando desse banco. Hoje a água já recuou mais de 30 metros", lamenta.

Segundo André Wirtzbiki, a seca afetou diretamente a economia da cidade. "Ao redor do açude, existiam vários bares. Isso aqui nos fins de semana ficava repleto de gente. Movimentava a economia da cidade. Hoje estão quase todos fechados. Só restaram dois, e com movimento de cliente quase inexistente".

Com o baixo nível da água e, consequentemente, o reduzido número de peixes no Junco, a Associação São Vicente de Paula, que reunia 12 famílias de agricultores, fechou as portas. O pescador Antônio Alves de Souza, 34, que vivia da piscicultura há mais de uma década, conta que não há mais como pescar no reservatório. Os pescadores mudaram o ramo. "A maioria hoje está na agricultura. Também é difícil, por conta da seca, mas como esse ano choveu um pouco a mais que o ano passado, a gente tem conseguido se virar", relata.

No fim do ano passado e no início do segundo trimestre deste ano, os pescadores acumularam outros dois grandes prejuízos. Toneladas de peixe morreram devido à baixa oxigenação da água. Só em novembro do ano passado, os moradores retiraram do reservatório mais de três toneladas de peixes mortos.

Assim como Granjeiro, outros municípios estão com o abastecimento comprometido. Dos 153 reservatórios monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), 40 estão no volume morto e 17 estão secos. O nível médio é de apenas como 12,08%.