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A comunidade ainda não conseguiu se restabelecer das marcas do massacre. (Foto: Reinaldo Jorge)

Um mês após chacina, "Barreirão" é todo silêncio e descrença.

Embora a rotina da comunidade tenha mudado, a falta de assistência é a mesma, de antes da chacina.

27/02/2018

Voltar à comunidade do ‘Barreirão’, no bairro Cajazeiras, um mês após a maior chacina já registrada no Ceará é como ter ouvidos e não conseguir escutar. O silêncio, presente na comunidade desde a tragédia que vitimou 14 pessoas na casa de shows ‘Forró do Gago’, passou a ser comum. Bocas fechadas de tristeza, de medo, de saudade, de descrença.

No período posterior à ‘Chacina das Cajazeiras’, o ‘Barreirão’ atraiu para si todas as atenções do Poder Público, e foi notado até pela imprensa internacional, contudo, 30 dias após o acontecido, o local esquecido durante anos volta a ser ‘invisível’.

O som das músicas que ampliavam a animação e a diversão da comunidade, hoje, fica retido ao quadrilátero das moradias ocupadas. A tragédia tirou mais do que vidas inocentes, segundo os moradores, ela maculou a região e, em decorrência do medo, transformou os habitantes em apenas usuários de seu próprio espaço: não saem à noite e fecham os portões logo cedo.

“Ainda está aquele clima: chegou o horário da noite, todo mundo se recolhe pra dentro de casa, não fica daquele jeito como era antes no bairro todo”, narra um habitante da comunidade que mora no local há mais de dez anos. Segundo ele, a comunidade ficou “marcada” pelo crime e a rotina das famílias que ali vivem foi modificada.

“A gente queria que nossas ruas voltassem ao normal, todo mundo nas suas casas e calçadas, andando sem medo, tranquilos”, pede uma moradora da região, ao lembrar que ao menos três famílias, desde o atentado, já se mudaram para outros locais e não voltaram. As placas de “vende-se” estampam duas casas vizinhas ao número 210 da Rua Madre Tereza de Calcutá, palco da chacina.

Enquanto o esgoto a céu aberto insiste em descer pela Rua Irmã Dorothy, perpendicular à da tragédia, um dos moradores já prefere que haja segurança, ao invés de melhorias estruturais. “A gente precisa de asfalto, saneamento? Precisa, mas o que ficou marcado foi essa tragédia. Uma vergonha para o Estado”, lamenta.

Descrença

Apesar da nova pintura com a inscrição “fortress asks for peace”, em tradução literal: “Fortaleza pede por paz”, o muro e o portão do ‘Forró do Gago’ ainda estampam as marcas de disparos, realizados no dia 27 de fevereiro. Ainda que a tinta preta do luto comunitário tenha passado por cima das fissuras, o que ocorreu parece ter ficado ali, não só fincado nas frestas da entrada, mas na memória dos habitantes da região. “Só acabou a mancha de sangue, mas a cabeça é a mesma, não esquece”, externa a moradora.

O comércio, inclusive, ainda sente as consequências da chacina, um mês após o ocorrido. Antes, os mercadinhos e mercearias funcionavam até as 22h, independentemente do funcionamento da casa de shows. Agora, com o receio de ficar com as portas abertas, os comerciantes fecham as portas às 20h30 e, às vezes, mais cedo. “Tem menos gente comprando também, principalmente nessa rua”, afirma um morador.

De acordo com o coordenador da Rede Acolhe, da Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPE-CE), Thiago Holanda, está sendo feito o acompanhamento das famílias e das vítimas que foram feridas. Contudo, a população do entorno, que não foi afetada diretamente, deve comparecer à sede da DPE, caso tenha algum direito violado. “Quem executa as políticas é o Município e o Estado, quando esses direitos não são garantidos, a Defensoria pode ser acionada para reivindicar isso”, garante.

Os órgãos governamentais, segundo a população, não foram mais ao local, desde o dia do crime. A Polícia passava frequentemente nos dias posteriores, mas, 30 dias depois, agora só está presente uma vez ao dia. “Não aparece ninguém. De fora, só tem a imprensa aqui”, afirmou a moradora.

A reportagem tentou contato com a assessoria de imprensa da PM, a fim de questionar a diminuição no policiamento da área, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Destaque nacional

Enquanto a Polícia já conseguiu prender alguns suspeitos da chacina, o relatório “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo”, do movimento Anistia Internacional, publicado anualmente, deu posição de destaque ao Ceará em razão do número de chacinas ocorridas durante o ano de 2017.

No ano passado, ocorreram cinco homicídios múltiplos no Estado: um em Aquiraz, um em horizonte, um em Paraipaba e dois em Fortaleza, totalizando 23 vítimas. Nem todos os crimes tiveram respostas, nem culpados presos.

Só em 2018, 28 pessoas foram vítimas de chacinas, registradas nas Cajazeiras, em Fortaleza; em Maranguape; e dentro da Cadeia Pública de Itapajé.



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