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(Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Nordestino tem mais sangue europeu do que indígena.

Um estudo da UFC apontou que quase 57% do DNA nordestino são de origem portuguesa ou holandesa.

17/03/2018

O sangue de nordestino cantado por Gonzagão, "marcado pelo destino de ser sempre sofredor" e corrente nas veias de boa parte dos quase 47 milhões que se distribuem na Região, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), circula em veredas tão diversas e distantes quanto as nossas origens. Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, revelou um dado inesperado sobre a genética do povo do semiárido: nosso DNA é mais europeu do que indígena - e nossos índios são mais asiáticos do que europeus.

De acordo com a pesquisa, 56,8% do DNA do povo nordestino são de origem europeia, principalmente portuguesa e holandesa, e o restante é composto pelas etnias africana (22,9%) e ameríndia (20,3%), esta com ascendência de povos asiáticos - resultado que, de acordo com o professor de Medicina da UFC e integrante do estudo, Alexandre Havt, foi "a maior surpresa". "Poucas pesquisas investigam a origem dos nossos índios, e essa verificou que os genes indígenas dos nordestinos têm origem do povo Bangladesh, na Ásia. Todos sabem que o asiático chegou à América, mas não tínhamos ideia de que tipo de população ele formou", aponta. A análise das raízes do sangue que corre no Nordeste foi realizada a partir da saliva de 1.538 crianças de até 3 anos nas cidades de Crato, no Ceará; Picos, no Piauí; Ouricuri, em Pernambuco; e Cajazeiras, Sousa e Patos, na Paraíba.

Medicamentos

A coleta das amostras, a princípio, tinha um foco diferente. "O objetivo era investigar se os agentes genéticos tinham relação de causa com a diarreia e a desnutrição em crianças do semiárido, e também produzir medicamentos para tratá-las. Mas o genecista com quem trabalhei nos Estados Unidos viu a possibilidade de analisarmos o povo do semiárido, algo que pouco aparece na literatura", explica Havt.

O mapeamento comparou determinados componentes das sequências de DNA dos cearenses, piauienses, pernambucanos e paraibanos, por meio dos quais foi possível analisar e estabelecer semelhanças com informações de outras populações. Questionado sobre que povos predominam nas origens da população do semiárido do Ceará, o professor afirma que seria preciso um novo estudo apenas com as amostras das crianças cratenses para determinar as porcentagens. Segundo o pesquisador, o fato de terem encontrado mais origens europeias do que negras e indígenas na genética nordestina emerge de bases históricas.

"Todo mundo sabe que somos um povo muito miscigenado, mas o Nordeste, por conta da seca e da pobreza, não tinha muitos escravos para que os genes africanos predominassem aqui. Era caro mantê-los", recobra o pesquisador, frisando, porém, que "as proporções genéticas em outras regiões podem ser totalmente diferentes".

A composição do DNA encontrada pelos pesquisadores da UFC e pelos norteamericanos diverge de outros estudos, que já chegaram a apontar que 80% do sangue nordestino vêm do índio. "Nenhum outro trabalho investigou tantos polimorfismos ao mesmo tempo: nós analisamos 800 mil marcadores. É um grau de precisão muito alto", garante Havt, ressaltando, ainda, a importância de conhecer as minúcias da nossa origem para obter avanços na área da saúde.

"Existem algumas enfermidades que têm predisposição a aparecer em determinada parcela da população. Quando conseguimos ter uma informação da origem das pessoas que vivem aqui, podemos começar a trabalhar que tipo de enfermidade está mais associada. Será que os nossos 20% asiáticos são influenciados por aquela doença específica de Bangladesh? Ou nosso percentual europeu domina?", pontua o pesquisador.



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