Carregando...

Publicidade

Dar sete voltas ao redor do cajado do Padre Cícero ou deixar esculturas de madeira ou outros objetos como agradecimento fazem parte dos rituais. (Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Romeiros santificam Juazeiro por causa do Padre Cícero.

A "santificação" dos locais da cidade, no Cariri cearense, aconteceu espontaneamente.

24/03/2018

Juazeiro do Norte. "O romeiro santifica Juazeiro", afirmou o frei Raimundo Barbosa, tentando explicar o costume dos ônibus dos romeiros darem três voltas ao redor da estátua de bronze de São Francisco, no Santuário dos Franciscanos. Alguns destes costumes e "santificação" dos locais desta cidade no Cariri cearense aconteceram espontaneamente, como a própria mudança de vila Tabuleiro Grande para distrito e, em seguida, para Município. Muito pela devoção e fé no Padre Cícero Romão Batista, que neste sábado (24), completa 174 anos de nascimento.

No Santuário de São Francisco, por exemplo, as três voltas que o ônibus dos romeiros dá ao redor da estátua, buzinando, é uma espécie de aviso à cidade da sua chegada. Cada giro é um agradecimento ao "Pai", "Filho" e "Espírito Santo". Não dá para precisar quando isso começou. Outra tradição no mesmo local é o "passeio das almas", percurso de cerca de 300 metros no largo da Paróquia. Além disso, a água da gruta é tida como benta e os fiéis carregam um pouco do líquido para sua cidade.

Longe dali, na Colina do Horto, os romeiros costumam dar sete voltas ao redor do cajado da estátua do Padre Cícero. É um momento de agradecimento ou de pedido. Até mesmo os juazeirenses reproduzem essa prática, como é o caso da advogada Antônia Gonçalves Leite, que nasceu na terra do Padre Cícero, mas hoje mora em Brasília (DF).

"É um momento de muita fé. Minha mãe tem 70 anos e me ensinou todo respeito a esse lugar, às crenças e falou que correto seria chegar próximo à bengala, rezar e fazer sete voltas agradecendo a tudo de bom que Deus fez por nossa vida", explica Antônia.

Um pouco mais longe, também na Colina do Horto, a cerca de 3 quilômetros da estátua, fica o Santo Sepulcro, um santuário em meio às pedras que foi o local escolhido pelo Padre Cícero como seu retiro espiritual. É um dos lugares mais visitados pelos romeiros. Lá, os fiéis se espremem entre as rochas como uma espécie de "purificação". Dizem que quem está cheio de pecado, não consegue ultrapassar.

Também na Colina do Horto fica o Museu Vivo do Padre Cícero, que recebe incontáveis itens deixados pelos visitantes como forma de agradecimento. Esculturas de madeira, fotografias e camisas são parte da coleção de ex-votos que colorem o antigo Casarão. Mas não é só lá.

Na Casa de Milagres, no Largo da Capela do Socorro e na Casa Museu, onde morou o santo popular de Juazeiro, também são deixadas diversas lembranças de graças alcançadas.

"A energia de Juazeiro é diferente, a gente vê nas pessoas essa fé. No museu, tem toda demonstração de fé. Tem essa energia de gratidão. As pessoas vêm como forma de agradecimento", acredita a advogada Antônia Gonçalves.


(Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Caminho a pé

E foi essa fé que motivou um grupo de 44 romeiros a virem a pé de União dos Palmares (AL), até Juazeiro do Norte. Foram cerca de 540 quilômetros de caminhada e dez pessoas ficaram pelo caminho. Do grupo que saiu do município alagoano no dia 1º de março, 34 resistiram e chegaram ao solo juazeirense 14 dias depois. São 14 mulheres e 20 homens, incluindo idosas, que ficarão em na terra do Padre Cícero até este sábado.

Segundo o José Alfredo Soares, um dos organizadores, esta é a segunda caminhada que o grupo realiza. A primeira, em 2016, começou a partir de uma conversa sobre as festas em Juazeiro do Norte. Eles lembraram a tradição dos pais e avós de caminharem até o município cearense. 21 pessoas realizaram o trajeto, mas, agora, o número aumentou. "Algumas pessoas já vieram a pé por causa de graça alcançada, aí fazem como penitência", disse.

Uma destas pessoas que caminhou para agradecer é a aposentada Maria Cleonice Souza, de 78 anos. Mesmo com a idade avançada, ela é uma das mais motivadas e felizes por chegar a Juazeiro. Ela explica que conhece a cidade desde criança, pois seus pais já peregrinavam em romaria. Aos nove anos, depois de passar seis meses na cama, sem poder andar com dores nas pernas, clamou o "Padrinho" para que a curasse. Sadia, ela já fez 64 viagens a Juazeiro do Norte.

"Há quatro anos vim a pé pela primeira vez, com 24 pessoas. Gastamos 12 dias. Já trouxe uma foto minha para agradecer, que está na casa do meu padrinho Cícero. Para mim, o que representa é a fé. Fico emocionada, sem palavras. O Horto é o lugar mais especial", garante Maria Cleonice.

Caminhos do Padre

O padre Cícero José da Silva, pároco da Basílica de Nossa Senhora das Dores, considera o patriarca de Juazeiro um "homem além do seu tempo". O sacerdote garante que, ainda hoje, 84 anos após a morte do santo popular, a romaria ainda cresce porque os romeiros "voltam para onde se sentem acolhidos", completa.

"O romeiro não fica em um só espaço. Ele percorre toda cidade. Podemos destacar a Basílica, onde aconteceu o milagre, a Capela do Socorro, onde ele está sepultado, o Horto, local onde está a estátua, o Santo Sepulcro, local de retiro e onde encaminhava as pessoas querendo uma vida de conversão. Hoje, se estende para outras igrejas", descreve o sacerdote.

Para ele, estes locais se tornaram centro de visitação, porque o romeiro que vem ao Município gosta de ter a mesma experiência de percorrer o caminho que o Padre Cícero fez. "Eles fazem questão que se repita a cada romaria. É um reabastecimento da fé. É um buscar força para quando retornar, dar continuidade como romeiro fraterno em sua comunidade", acredita.

A dinâmica de Juazeiro do Norte e de seus locais mudou ao longo do tempo. Após o milagre da hóstia, por exemplo, o lugar de peregrinação era a casa da Beata Maria de Araújo, que já não existe mais. Lá, os romeiros veneravam os lenços sujos de sangue.

No entanto, outros pontos construídos não tiveram sucesso como a estátua do Padre Cícero, inaugurada em 1969. O maior exemplo é o Luzeiro do Nordeste - torre de 113 metros de altura inaugurada em 2005 - , que deveria servir como local de celebrações, mas isso não acontece há muitos anos.

"Nós sabemos que a dinâmica do Município pode até mudar. Há um fenômeno que acontece que não podemos perder que é o turismo religioso. Hoje, os romeiros visitam outros espaços, cidades vizinhas, mas não tiram o encontro com os lugares onde Padre Cícero passou. Penso que essa espacialidade dos lugares deve ser preservada, mas devemos estar abertos para o que quer surge como novo", completa padre Cícero José.

Sobre os ritos e costumes dos romeiros, como na estátua e no Santo Sepulcro, padre Cícero José defende que o jeito que as pessoas entram em contato com Deus "não se explica, se vive". "Eu observo a cada expressão, mesmo quando tem grande número de romeiros, a Igreja lotada, mesmo no meio daquele barulho, tem pessoas em total sintonia com sua fé", conclui.


(Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Reconhecimento

A Secretaria de Cultura de Juazeiro do Norte (Secult) lançou, na última terça-feira (20), uma campanha para colher assinaturas dos romeiros, que serão entregues ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A ação visa justificar o registro de locais sagrados do Município no Livro de Registros de Lugares do Iphan. Nestes lugares podem estar, por exemplo, o Horto, o Santo Sepulcro, a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro e também a Casa do Padre Cícero.

No livro de Registros de Lugares do Iphan podem ser inscritos mercados, feiras, santuários e praças onde se concentram e se reproduzem práticas culturais coletivas. Estes espaços possuem sentido cultural diferenciado para a população local, onde são realizadas práticas e atividades variadas, tanto cotidianas quanto excepcionais, vernáculas ou oficiais.

"Isso pode possibilitar, primeiro, a visibilidade. Paralelo a isso, todo projeto enviado por Juazeiro terá outra credibilidade. O registro encurta caminhos. A gente vai poder dialogar em outro patamar com outros lugares do mundo. É uma característica natural do Juazeiro do Norte esse diálogo, vai agregar, fortalecer e aumentar nossas oportunidades", projeta o titular da Secult, Renato Fernandes.

Este trabalho começou em 2005, com a atual secretária-adjunta de Cultura, Sandra Nancy, que entrou com pedido de tombamento da estátua do Padre Cícero como um patrimônio sagrado.

O Iphan, então, achou mais interessante ir além e fazer um levantamento mais completo, a partir de um estudo sobre as romarias e os próprios romeiros. O órgão solicitou cerca de 3 mil assinaturas. "Isso demonstra que o romeiro reconhece os lugares, toda essa memória sobre o Padre Cícero e esses pontos sagrados", completa Renato.

A próxima etapa é a assinatura de um termo de cooperação onde Iphan e Município trabalham juntos para acelerar algumas etapas do processo. "Esperamos que, com estas etapas cumpridas, a gente consiga esse registro de lugares até o fim deste ano ou até o primeiro trimestre de 2019", conclui Renato. A coleta de assinaturas acontece na recepção do Memorial Padre Cícero, mas será expandida para outros locais. O romeiro que quiser contribuir deve deixar seu nome e o número de RG ou CPF no abaixo-assinado.

Enquete

Por que Juazeiro do Norte é especial?

"Juazeiro é uma terra sagrada, santa. Foi aqui que o Padre Cícero fez os milagres, curou, deu aconselhamentos, que houve a interseção para que as pessoas recebessem as graças. Onde ele se instalou e criou a cidade"

José Alfredo Soares
Empresário e Romeiro de União dos Palmares (AL)

"Todo ano tem as romarias para pagar promessas, fazer pedidos. Várias pessoas, vêm. Eu mesmo vim fazer um pedido, movido pela fé. Mas o Horto é especial porque a imagem, numa altitude dessa, é muito bonita"

José Gomes da Silva
Romeiro de Bezerros (PE)


Total de acessos: 237852

Visitantes online: 18