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Sem assistência técnica, o sertanejo não consegue encontrar melhor meio para produzir. (Foto: Kid Júnior)

Avaliação Técnica: Convivência com a seca exige planejamento de longo prazo.

Em "Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?", o meteorologista Humberto Barbosa e a jornalista Catarina Buriti destacam a necessidade de repensar o uso da água.

07/04/2018

Iguatu. "O Semiárido nordestino já enfrenta um processo de mudança ambiental e com uma velocidade rápida. Esse quadro exige políticas públicas eficazes - um repensar do uso da água nas atividades produtivas na área rural e no consumo urbano. Nos próximos anos, haverá um agravamento da escassez hídrica, trazendo um quadro de incerteza e de insegurança para toda a sociedade". A previsão é do meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Humberto Barbosa e a jornalista Catarina Buriti são autores do livro "Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?". A obra, com 437 páginas, é fruto de uma pesquisa de quatro anos em documentos do acervo do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) e em outros órgãos públicos nacionais e em instituições estrangeiras.

Mais intensa e prolongada

A estiagem que castiga o sertão nordestino desde 2011 é a mais intensa e prolongada, segundo documentação histórica. Para Humberto Barbosa, o ciclo da atual seca se encerra na parte setentrional (norte) do Estado, que em 2017 alcançou índices pluviométricos dentro da média, mas ainda perdura em outras regiões do Ceará.

Crítico das políticas públicas implantadas ao longo dos séculos XIX e XX, decorrentes de mobilizações mediante grandes catástrofes, Humberto Barbosa lança um alerta e chamamento aos gestores para a necessidade urgente de um planejamento com a participação de todos os segmentos da sociedade. "Os problemas já estão presentes e devem se agravar", frisa. "As obras de infraestrutura, por si só, não resolvem o drama atual, a escassez de água".

O pesquisador observa que, desde o século XIX, os governos priorizaram a construção de açudes e de canais de transferência de água como forma de combater os efeitos das secas. "São obras anti-secas, emergenciais, surgidas por pressão de uma catástrofe. Ainda hoje é assim, sem um planejamento de longo prazo e sem a participação da sociedade", destaca.

Ações insuficientes

A construção de açudes, a concentração da água e a distribuição irregular beneficiaram uma oligarquia e esses moldes de políticas públicas, insuficientes, persistem hoje. "Claro que a construção de açudes e a obra de Transposição do Rio São Francisco para integração de bacias são importantes, mas, sozinhas, não resolvem o problema secular da pobreza dos agricultores", diz.

Os autores da obra observam que o desenvolvimento do Nordeste passa por água, energia e produção agrícola. "A região começou a modificar a sua matriz energética, implantando sistemas eólicos e solares, e é preciso diversificar a produção no Semiárido, levar assistência técnica para o campo, implantar tecnologias de convivência com a seca, fazer um manejo adequado do solo, dos modelos de criação de animais, priorizar as cultivares adequadas", sugere.

Humberto Barbosa chama a atenção para a situação enfrentada pelo Rio São Francisco, que estaria agonizando. "As obras de revitalização não foram implementadas. Só a transposição de sua água não será solução para o quadro de escassez hídrica na Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte", argumenta.

A exemplo do Eixão das Águas, a grande maioria dos agricultores não terá acesso ao recurso hídrico. "Aqueles que serão beneficiados precisam de novas técnicas de manejo, de um melhor aproveitamento e de assistência técnica", defende Barbosa. "A água sairá de uma longa distância para atender demanda dos grandes centros urbanos, que apresentam desperdício enorme - por vazamento e consumo sempre crescente".

Mais vulneráveis

O meteorologista Humberto Barbosa ressaltou que a população mais vulnerável são os pequenos agricultores, as famílias moradoras das áreas rurais. "Com a crise hídrica, as mudanças ambientais, todos serão afetados, os pequenos de forma mais rápida, mas toda a cadeia econômica será atingida", afirma.

Os centros urbanos sofrem o processo do agravamento da crise hídrica em face do reduzido volume nos açudes e sem perspectiva de recarga significativa. "As políticas públicas definem obras para levar água para as cidades, mas não podemos olhar somente para a área urbana. É essencial que o urbano e rural convivam. A alimentação vem do rural, é onde há a produção para atender a demanda de consumo e as cidades devem gerar novos serviços. Devem ser complementares", pondera.

A jornalista Catarina Buriti divide a opinião do colega autor da obra de que as grandes obras de infraestrutura precisam ser repensadas e defende a discussão ampla entre todos os agentes sociais para que se defina um melhor modelo a ser adotado.

Falta participação

Em "Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?", a resposta para a pergunta instigante aponta a falta de participação da sociedade civil na implementação dessas ações de governo e a má distribuição de água para a população. Sem assistência técnica, o sertanejo não consegue encontrar melhor meio para produzir. "Eles resistem, permanecem no campo, mas as dificuldades aumentam por não conhecerem novas tecnologias", afirma Barbosa.

Para os autores, no século XXI, o problema se mantém. "As mesmas políticas públicas não atingem o corão do agricultor, a pobreza ao redor das barragens é muito grande, onde tem água, e onde não tem, é ainda maior", analisa Barbosa.

Catarina Buriti frisa que, sem o adequado conhecimento de convívio com a seca, os produtores vão continuar enfrentando dificuldades e vão permanecer sem condições de transformar o modelo produtivo inadequado para a região. "Não ocorre a transformação esperada", diz.

O agrônomo Paulo Maciel, do Instituto Rio Jaguaribe, também observa que a seca é um desastre natural e a realidade do pequeno produtor rural pouco tem mudado no século XXI em relação ao século passado. "É preciso transformar a realidade do Semiárido. Essa transformação ocorrerá com ações adequadas, de proteção ambiental para se conviver com a seca", ressalta.

Maciel mostra preocupação com a degradação ambiental - perda de qualidade do solo, avanço da erosão, redução das reservas hídricas. "O modelo atual é inadequado. A situação agrava-se a cada ano. A Caatinga é mal tratada. Há em curso processo de degradação que afeta a qualidade do solo, compromete armazenamento da água; a preservação da vegetação; e tudo isso influencia também no clima", acrescenta Barbosa.

Convivência

Há exemplos de uso de tecnologias de convivência com o Semiárido, de boas práticas, que são exitosas para núcleos de produção familiar. "Muito já ocorre no presente e tende a se intensificar", verifica Maciel.

Para os pesquisadores, o sertão nordestino já está afetado e a perspectiva é de ciclos mais demorados e intensos de seca. "A realidade é grave, os efeitos são cada vez mais danosos, daí a necessidade de políticas públicas que proponham com eficácia o desenvolvimento sustentável da região. As secas tendem a ser imprevisíveis e mais duradouras", observa Barbosa.

Fique por dentro

Análise crítica e estratégias para a gestão da seca

Os autores levaram cerca de quatro anos para produzir o livro. Durante a pesquisa, visitaram e/ou consultaram documentos das principais instituições e organizações sociais que fazem parte da história da política de convivência com a seca no Semiárido.

Com base na pesquisa, além de os autores oferecerem uma compreensão crítica e abrangente sobre a região semiárida do Brasil, no passado e no presente, apontam caminhos e traçam estratégias político-institucionais para promover a gestão sustentável da seca, no contexto de possíveis mudanças climáticas.

No contexto do Semiárido brasileiro, a pesquisa foi validada em municípios do Cariri paraibano, microrregião considerada a mais seca do Brasil. Além disso, é área altamente vulnerável às mudanças climáticas, ao processo de desertificação e, por essa razão, extremamente carente de políticas para mitigação dos impactos da seca.

O livro se destina a públicos de diferentes áreas de atuação, incluindo tomadores de decisão, formuladores de políticas, pesquisadores, professores, estudantes, agentes de organizações da sociedade civil, empresários e ativistas ambientais.



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