Carregando...

Publicidade

Ciro falou ontem, na CDL, sobre a atual conjuntura nacional e desafios para o País. (Foto: Kléber A. Gonçalves)

Prioridade das esquerdas deve ser um novo projeto de desenvolvimento para o País, defende Ciro.

13/04/2018

Único dos pré-candidatos à Presidência da República filiados a partidos inclinados à esquerda que não compareceu às mobilizações em São Bernardo do Campo (SP) e em Curitiba (PR) antes e após a prisão do ex-presidente Lula (PT), na última semana, o cearense Ciro Gomes (PDT) lamentou, em entrevista coletiva na noite desta quinta-feira (12), a prisão do “camarada” e também reafirmou solidariedade e apoio ao petista, mas defendeu que o momento, para as esquerdas brasileiras, não é de mobilizações como o acampamento realizado por apoiadores do ex-presidente em frente à sede da Polícia Federal (PF) na capital paranaense, onde Lula está detido desde o último sábado (7). Para ele, seis meses antes das eleições presidenciais, a prioridade das forças de oposição deve ser a formulação de “um novo projeto nacional de desenvolvimento”.

“A nossa mobilização vai alterar a pena do Lula? A forma de execução penal que vai acontecendo? Lamento, não vai alterar. O que nós precisamos fazer, penso eu, é formular para o futuro do País, a partir de agora, uma proposta de um novo projeto nacional de desenvolvimento, que restabeleça a confiança perdida por amplos setores da esquerda na maioria do povo brasileiro. Se a gente não tiver humildade para perceber isso, nós vamos ficar defendendo coisas muito legítimas, mas vamos simplesmente permitir que se consuma uma agenda absolutamente hostil aos interesses da sociedade brasileira”, declarou, antes de proferir palestra, na Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Fortaleza, sobre a atual conjuntura nacional e desafios para o País.

Ciro ressaltou que, um dia antes da prisão do ex-presidente, participava de evento nos Estados Unidos com o vice-presidente nacional do PT e ex-ministro da Saúde no Governo Dilma (PT), Alexandre Padilha, mas ponderou que “nem se quisesse” teria chegado ao Brasil a tempo de comparecer à vigília em apoio a Lula no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Ele disse ter “respeito” e “dor no coração” pelo que está acontecendo com o petista, a quem chamou de “velho camarada com quem convivo há 30 anos”, mas sustentou que é preciso dedicar esforços a outras questões que estarão em jogo na disputa eleitoral.

“Se eles ganharem a eleição, vão consumar a entrega do petróleo, vão consumar a Reforma da Previdência contra os miseráveis, contra os pobres, contra os mais humildes, e preservando os privilégios. Se nós fraquejarmos, permitirmos que eles ganhem a eleição, eles vão levar essa agenda antipovo e antinacional às últimas consequências, e isso é o que está em jogo. O resto são os nossos sentimentos legítimos”, opinou.

Visita a Lula

Questionado se visitaria o acampamento em apoio ao petista em Curitiba caso seja autorizado pela Justiça – o PDT pediu, nesta quinta, autorização à 12ª Vara Federal de Curitiba para que ele pudesse ir ao encontro do ex-presidente -, o pré-candidato afirmou que “não participa desse tipo de coisa faz tempo” e disse não achar “próprio esse conjunto de movimentos”. “Inclusive, tem prejudicado o Lula, na minha opinião, porque a Justiça impõe ao conjunto da sociedade a sua majestade. Se você começa a contestá-la em eventos públicos, com frases agressivas, etc, etc, você cria um ambiente hostil ao seu próprio interesse. Por isso que a sabedoria recomenda que a gente afirme sempre aquela mesma frase: Justiça não se comenta, Justiça se obedece, se acata; ainda que você seja legitimamente um crítico, como eu sou, dos encaminhamentos da Justiça brasileira, não só com o Lula”.

O ex-ministro do petista, porém, criticou as comemorações da prisão do ex-presidente. “Dói no meu coração ver que setores do País soltaram foguetes, inclusive em Fortaleza, para a prisão do presidente. Isso não é cristão, isso não é humano, e isso é um sintoma de uma força que o Brasil não costumava cultivar, que é o ódio e a intolerância. Para qualquer pessoa, ainda que se considere crítica ou que pense que o Lula é culpado, o mínimo de dignidade é respeitar um homem que transitou pelo mundo inteiro representando o País, e que é amado por milhões de brasileiros, porque mexeu com a vida, especialmente, de amplos setores da nossa pobreza”, argumentou. Para Ciro, não é possível saber, ainda, que efeitos eleitorais a prisão do petista pode ter neste ano.

Intrigas

Contrariando nota publicada pela jornalista Mônica Bergamo na edição de ontem do jornal Folha de S. Paulo, em que dizia que “Ciro Gomes aposta que PT correrá para seus braços para evitar fiasco eleitoral”, o pedetista, por sua vez, defendeu que é preciso “dar tempo” para que o PT se organize e, ainda, respeitar “com naturalidade” a ideia de que o partido terá candidatura própria ao Palácio do Planalto. “É preciso que eles anunciem que o Lula é o candidato deles porque eles não podem enterrar o Lula, não é razoável que eles possam fazer isso. É preciso que eles tenham, no bastidor, o cálculo de outro petista para ser (candidato), e tudo isso tem que ser entendido como legítimo, normal, e isso é o que eu estou dizendo”, reagiu.

Segundo ele, há um “centro de intrigas” em curso, com sede em São Paulo, apavorado com a ideia de unidade de um campo popular e progressista representado por ele, Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL, Manuela D’Ávila, pré-candidata do PCdoB, pelo PT, “em parte”, e pelo PSB, que voltou ao campo da centro-esquerda, além de Marina Silva, pré-candidata da Rede, a quem Ciro disse respeitar muito, mesmo que não componha a mesma frente de partidos.

“Há uma brutal intriga para que essa unidade não aconteça, e eu acredito que essa unidade não acontecerá, porque falta cimento para a coesão disso, na medida em que há projetos distintos. Eu tenho aliança, solidariedade com o PT, especialmente nesse momento difícil, mas o projeto que eu defendo para o Brasil é diferente profundamente daquele que o PT praticou no País nos últimos anos. Tem muitas afinidades – o compromisso com os pobres, o compromisso com expandir a educação, são afinidades, mas a política econômica, por exemplo, será mudada completamente se eu tiver um dia a chance de servir ao Brasil como seu presidente. O resto é intriga e, infelizmente, parte da burocracia do PT cai nessa intriga porque lhe é conveniente também”, avaliou.

Cenário estadual

Ao tratar da disputa eleitoral pelo Governo do Estado e de possível aliança entre o governador Camilo Santana (PT) e o senador Eunício Oliveira (PMDB), ex-adversários em 2014, o ex-governador afirmou que o que tem ocorrido no Estado, até o momento, é apenas uma aproximação “em nome da agenda do povo do Ceará”. “A melhor tradição do Ceará é que a gente briga aqui dentro, mas anda lá fora juntos, para fazer as coisas acontecerem para o nosso povo. Isso sempre foi assim, na melhor tradição do Ceará”, frisou.

Tal movimentação só evoluiria para um acordo eleitoral, de acordo com Ciro Gomes, se pesquisas comprovarem que haveria aceitação popular a eventual aliança entre ex-adversários. “Se isso repercutir amanhã, e a gente tem instrumentos científicos de apuração, numa naturalidade, é possível que esse acordo evolua. No momento em que eu lhe falo, assentado em pesquisas, ainda não há naturalidade da percepção popular para isso”, colocou.



Total de acessos: 178929

Visitantes online: 65