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Uma espécie de escravidão, a social, ainda permeia os ares de Redenção. (Foto: Alex Pimentel)

Abolição em Redenção: Africanos buscam libertação social.

130 anos depois da Abolição, nos relatos ainda há preconceitos, dificuldades e mesmo de desconfiança.

12/05/2018

Redenção. Neste 13 de maio, 130 anos após a promulgação da Lei Áurea, uma espécie de escravidão, a social, ainda permeia entre os engenhos de cana-de-açúcar e nos ares de Redenção. Esse é o sentimento de universitários egressos de cinco países do continente africano, residentes na primeira cidade do Brasil a abolir oficialmente a escravatura. Eles começaram a chegar no início de 2011, para formação no Campus da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Passados seis anos, ainda dizem sentir discriminação por parte da população local.

Numa roda de amigos, quando uma conversa descontraída começa, logo surgem relatos, em bom Português - língua oficial de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe - sobre os constrangimentos sofridos no dia a dia da cidade onde, no primeiro dia de janeiro de 1883, em frente à igreja Matriz, foram entregues a 116 escravos, as primeiras cartas de alforria no País. Para quem carrega no sangue essa história, é difícil de entender como um lugar abolicionista continua acorrentado ao passado.

Essa é a opinião de Denise Fernandes Vilhiete. Ela partiu há seis anos de São Tomé e Príncipe, um estado insular localizado no Golfo da Guiné, composto por duas ilhas principais e várias ilhotas, para cursar Engenharia de Energia na Unilab. A universitária reconhece ter reduzido mais a desconfiança e os insultos dos anfitriões, mas algumas situações, apesar de isoladas, ainda persistem. O conforto aparece em amizades sinceras e no acolhimento de braços abertos de quem entende o que realmente é liberdade.

Dionísio Monteiro Gomes chegou de Guiné-Bissau a Redenção um ano depois, para cursar Agronomia na Unilab, mas diz já estar mais familiarizado, inclusive noivo de uma cearense. Entretanto, ainda sente estranheza ao caminhar pelas ruas da cidade. Muitos moradores reagem com estranheza quando lhes diz bom dia. É como se ainda estivesse há alguns séculos atrás, quando os escravos eram obrigados a se manterem cabisbaixos e não podiam nem falar, relembrando o porto de Cacheu, na sua terra natal, um dos pontos muito fortes de comercialização de seres humanos.

Com um ano a menos de convivência na cidade redencionista, Sandro Vieira Pax, 28, não imaginava chegar de Angola noutro continente com raízes africanas tão fortes, como na música, culinária e cor da pele, e ter dificuldade de se enturmar com os colegas, por ser considerado "mais burro". "Para quem acredita que a África é um país e não um continente e mal sabe falar a própria língua, aprendi a compreender a barreiras para alguns", comentou o angolano ressaltando falar três línguas, uma delas o crioulo, preferida em muitos países africanos.

Pelos cálculos dos estudantes africanos, mais de 700 residem atualmente no município fundado no sopé do Maciço de Baturité. Eles representam aproximadamente 1/4 do número de universitários da Unilab, reconhece a assessoria da Instituição, todavia, desconhece a existência de preconceitos em relação aos acadêmicos estrangeiros, destacando, que, além da formação superior, a universidade surgiu para a integração entre os dois povos. Ela até disponibiliza programas assistenciais para estrangeiros.

No quarto semestre de História, Paulo Roberto Lopes, 27, natural de Redenção, confirma ainda continuar ouvindo relatos de alguns colegas, se sentindo hostilizados, mas, fato comprovado, não tem conhecimento de nenhum. "Muitas vezes a reação negativa ocorre das duas partes. Alguns africanos reagem com desconfiança. Evitam até falar sobre suas raízes, quando, do outro lado da avenida da universidade, no Museu Senzala, podem rememorar um pouco do elo que agora nos une por meio da educação", completa o universitário.

Festival das Culturas

Apesar de o 13 de maio ser apenas mais uma data relacionada à abolição da escravatura, considerando-se o 1º de janeiro, data especial para o Município e 25 de março, Dia da Libertação no Ceará, neste mês a Unilab promove, pelo terceiro ano consecutivo, o Festival das Culturas. Música, dança, palestras, minicursos, a programação está prevista entre 23 a 25 deste mês.

O evento foi criado para promover expressões artísticas e da cultura popular. Os países africanos e asiáticos que compõem o projeto têm em comum um passado de colonização portuguesa e de inúmeras resistências construídas para dar luz à liberdade dos seus povos. A partir deste ambiente social, da superação das heranças coloniais na organização de novas vivências nacionais independentes, estes países incorporaram significados renovados sobre identidade artística e cultural. O evento traz a promoção das culturas como retomada dos destinos individuais e coletivos pós-coloniais.


Segundo o estudante Paulo Roberto Lopes, eles evitam até falar sobre suas raízes, quando, do outro lado da avenida da universidade, no Museu Senzala, podem rememorar um pouco do elo que agora os une pela educação. (Foto: Alex Pimentel)

Museus e praças relembram escravidão

Redenção. Obeliscos, monumentos e dois museus, um deles onde, inclusive, é preservada uma senzala. Esse é o acervo de um período da história brasileira, do qual Redenção se orgulha de ter se libertado e servido de exemplo para o Brasil. Há mais de 20 anos é a servidora municipal Socorro Freitas, tratada por Socorrinha, quem recepciona os visitantes no Museu Municipal, antiga Casa de Câmara e Cadeia e, posteriormente, Paço Municipal. No seu salão principal, estão expostas algumas peças e documentos da época da escravatura.

Da varanda do modesto relicário é possível ver a antiga fazenda do coronel português Simião Jurumênia, transformada pelos atuais proprietários no Museu Senzala Negro Liberto. Ainda produzindo uma das bebidas mais apreciadas pelos brasileiros, a cachaça, inventada pelos escravos africanos, o lugar marca visitantes, a maioria estudantes, principalmente quando percorrem o tenebroso alojamento dos trabalhadores que pertenciam ao Senhor da Fazenda, sob os seus pés, já que fica abaixo do piso da casa grande.

Desde 2003, quando o Museu Senzala começou a funcionar, o guia turístico Kleudes Saraiva recepciona o público e com segurança descreve cada detalhe relacionado à escravidão praticada nos 100 hectares da fazenda nos meados de 1700 para 1800. Hoje, a propriedade é cinco vezes maior, apesar de os pouco mais de 300m² abaixo do assoalho serem suficientes para demonstrar a dimensão das atrocidades praticadas naquela época antecedente à abolição. Quem percorre os labirintos acompanhado de dezenas de morcegos, apesar de ouvir uma agradável música africana, fica impressionado.

"O gemido dos escravos muitas vezes servia de melodia para os ouvidos do coronel. Quando se cansava de ouvir o sofrimento deles por toda a casa, mandava amordaça-los".

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"Quando alguém lhe pergunta se você mora em árvores e cria algum leão, com certeza não é um gesto de brincadeira ou coisa de cearense, considerado um povo bem humorado. Coisas assim doem. Felizmente poucos agem dessa forma"

Denise Fernandes Vilhiete
Universitária

"Nós ainda somos considerados intrusos, como quem chegou aqui para ocupar um espaço que é deles. Alguns até reclamam que as garotas daqui preferem os africanos aos brasileiros, mas as meninas da África não correspondem a eles"

Dionísio Monteiro Gomes
Universitário



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