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Conforme a Polícia Civil do Amazonas, o Ceará é um dos Estados mais importantes para a facção manauara FDN. (Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Rompimento entre facções no Amazonas deve impactar no Ceará.

21/05/2018

Já são 1.626 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) - homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, somente de janeiro a abril deste ano, no Ceará. A justificativa da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) é que a grande maioria dessas mortes estejam ligadas a disputas territoriais entre as facções. O principal conflito, atualmente, envolve a facção local Guardiões do Estado e o Comando Vermelho (CV). Porém, uma briga ocorrida no Estado do Amazonas pode representar mais um impacto no número de execuções no Ceará.

Uma fonte de uma célula de Inteligência da SSPDS disse que os reflexos da briga entre as facções Família do Norte (FDN) e CV, em Manaus, devem aparecer no Ceará em breve. "Aqui essas duas facções conviviam em harmonia. Era como se fosse uma coisa só. Tanto que dividem os mesmos territórios na venda das drogas, são custodiados juntos nas mesmas penitenciárias. Para dividir isso vai dar muito trabalho e, certamente, muita gente envolvida com uma das duas organizações vai morrer".

O investigador explica que de todas as facções que atuam no Estado, apenas o Primeiro Comando da Capital (PCC) não está "em guerra" com as outras. "O PCC continua sendo a principal facção, a mais poderosa, a mais respeitada entre os criminosos, mas não faz parte dessa confusão toda. Nunca fez. Desses mais de cinco mil homicídios que aconteceram no Ceará, em 2017, o PCC foi quem menos teve culpa. Exatamente por isso, permanece estável".

Conforme o investigador, a organização criminosa paulista adotou uma espécie de política empresarial para conseguir lucros maiores. "Ao PCC não interessa brigar. Virou uma empresa. Ele traz a droga para a GDE vender aqui no Ceará. Contanto que a GDE pague, não interessa com quem está brigando, se mata muito ou pouco, se comanda uma ou 10 comunidades de Fortaleza. Independentemente de qualquer conflito, o lucro do PCC é garantido, sem que ele se envolva diretamente".

Por conta deste contato para o fornecimento da droga, a GDE é 'aliada' ao PCC no Ceará. Em nível nacional, a facção paulista não se associa a nenhuma outra. A relação com a FDN e CV, por exemplo, é de rivalidade. "Vejam a que ponto chegamos. A Segurança Pública tem que estar preparada para como os bandidos vão se arranjar, para não colocar todo um trabalho, toda uma estratégia de combate a perder. O crime organizado se espalhou de forma homogênea, se tornou um problema do País".

Importância

O delegado Guilherme Torres, diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) da Polícia Civil do Amazonas, disse que o rompimento entre CV e FDN já foi confirmado em Manaus e que, certamente, representará um impacto em todos os estados em que as facções eram ligadas. Segundo Torres, o Ceará, o Pará e o Rio de Janeiro são os estados mais importantes para a FND, fora o Amazonas.

"Em Manaus e no Pará já aconteceram vários homicídios, depois desse rompimento. Também já foram registradas fugas de unidades prisionais. Não sei até que ponto esse impacto será sentido no Ceará, mas certamente haverá".

O delegado ressalta que o Ceará é um dos principais pontos de escoamento de drogas da FDN. "Há uma ligação muito forte dessa rota daqui com o Ceará. Inclusive, um dos lideres da FDN foi morto aí. Do ponto de vista geográfico, o Ceará é um ponto estratégico para a facção, pelo proximidade com a Europa. Praticamente toda a droga que vem da Colômbia, do Peru, e agora da Venezuela, vai para o Ceará e o Pará".

Guilherme Torres disse que não existem provas de quem seria o líder da facção manauara aqui, mas afirma que há indicativos que diversos foragidos do Sistema Penitenciário do Amazonas podem estar no Ceará.

A ofensiva da FDN e do CV na rota que liga Fortaleza a Manaus teria avançado depois da execução do megatraficante Jorge Rafaat Toumani, conhecido como 'Rei da Fronteira' Brasil / Paraguai. Depois do assassinato, o PCC tomou o controle das rotas terrestres e as outras organizações criminosas que agiam nas fronteiras investiram no transporte de entorpecentes pelos rios, já dominado pela FDN.

Traição

O diretor do DRCO explica que o rompimento entre as facções no Amazonas se deu depois que os fundadores da FDN, João Pinto Carioca, o 'João Branco'; e José Roberto Fernandes Barbosa, o 'Zé Roberto da Compensa' descobriram um suposto plano arquitetado por Gelson Lima Carnaúba de tomar para si o domínio da organização e integrá-la ao CV.

Os três já tinham sido inimigos, mas se aliaram em 2006, após uma conversa em um presídio. No ano seguinte fundaram a FDN. O esquema dos traficantes movimenta anualmente toneladas de cocaína vindas da Colômbia e do Peru, pelos Rios Negro e Solimões, e por seus braços.

Conhecendo as rotas fluviais melhor que ninguém, a FDN conseguiu monopolizar o caminho em que um quilo de cocaína colombiana chega em Guajará-Mirim, no Estado de Rondônia, custando R$ 4 mil e atravessa todo o País para chegar ao Ceará valendo R$ 20 mil. Somente o DRCO apreendeu 1,3 tonelada de drogas dentro dos rios, de janeiro a abril deste ano.

"Existem várias questões internacionais que contribuem com isso. Não adianta a Polícia estar na rua combatendo as consequências, se as causas do problema não são atacadas", disse Guilherme Torres.

Fundador da FDN foi preso duas vezes no Nordeste

Há anos as ações do traficante Gelson Lima Carnaúba causam estragos Brasil afora. Ele articulou a criação da Família do Norte (FDN) com 'Zé Roberto da Compensa' e 'João Branco', em 2006. No ano de 2008, foi preso em Fortaleza pela Polícia Federal, sob a suspeita de tráfico internacional de drogas. Seis anos depois, reorganizou e fortaleceu o Sindicato do Crime, atualmente, a maior facção potiguar.

De acordo com o delegado Guilherme Torres, diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) da Polícia Civil do Amazonas, a trajetória de Carnaúba no crime fez com que ele passasse por unidades prisionais de vários estados. Por onde passava, tentava articular novos esquemas.

"Quando ele deixou a prisão no Ceará, foi preso novamente no Rio de Janeiro. Lá ele conheceu Marcinho VP (Márcio dos Santos Nepomuceno, então líder nacional do Comando Vermelho), que deu a ideia ao Gelson de juntar a FDN e o CV. Ele fugiu da prisão, em 2014, mas acabou sendo recapturado no Rio Grande do Norte. Foi encaminhado para a Penitenciária de Alcaçuz, onde reorganizou o Sindicato do Crime", explicou.

Com capilaridade em várias partes do Brasil e conexões para trazer entorpecentes de outros países, Gelson Carnaúba chegou a ser cotado para líder nacional do CV. Porém, 'João Branco' descobriu seus planos. "O racha já foi consolidado. O Gelson, o 'Mano Caio' e o 'Cinta Larga' assumiram o CV no Amazonas. 'Zé Roberto' e 'João Branco' lutam pela liderança do que está sendo chamada de 'FDN Pura'. Esse movimento de divisão deve acontecer no Ceará, no Pará e no Rio de Janeiro também", afirmou.

Sistema prisional

Guilherme Torres afirma que há uma relação de dependência do crime organizado e os presídios e pontua que é preciso reformular o Sistema Carcerário brasileiro, para enfraquecer as facções. "Toda organização criminosa nasceu em unidades prisionais. As prisões não respeitam a individualização das penas, como prevê o Artigo 5º, da Lei de Execuções Penais (LEP). É o mesmo que pegar uma caldeira e ir colocando lenha. Isso vai fervendo. Na semana passada, houve a fuga de 35 membros do CV, que estavam no Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM2) de Manaus. Escapou uma facção toda. É preciso que as rédeas do Sistema Prisional sejam tomadas e que presos não sejam divididos por facções, mas por crime".

O delegado diz que sempre se fala em uma solução a longo prazo para o problema com as facções, mas vê essa solução cada vez mais distante. "As pessoas que estão às margens da sociedade, que não são aceitas acabam sendo recrutadas pelas facções, porque o homem é um ser social, ele precisa conviver, se sentir parte. Eles acabam participando de uma microssociedade, onde para ascender precisam praticar crimes. Toda facção vende um ideal, diz coisas que fazem as pessoas se sentirem importantes, tanto é que se tratam como família, se chamam de irmãos. Sempre se fala de uma solução a longo prazo, que se dá pela educação, mas esse projeto nunca começa", declarou Torres.



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