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(Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)

Fronteiras: Novas rotas escoam armas e drogas da Colômbia e Venezuela no CE.

Outros pontos de rios e BRs estão sendo usados para a inserção de material ilegal no Brasil, pela Região Norte do País.

22/05/2018

Tateando em busca de soluções para problemas da Segurança Pública, o Brasil precisará se preocupar com duas novas rotas de tráfico de armas e drogas que desembocam na Região Norte e se espalham pelo País. Conhecido como 'ponto final' de várias rotas internacionais, o Ceará, que enfrenta sérias questões de disputas territoriais entre facções, é novamente afetado pela maconha trazida da Colômbia e as armas vindas da Venezuela.

Historicamente, duas grandes rotas fluviais partem da Colômbia em direção ao Brasil, pelos Rios Negro e Solimões. Ambas desembocam no Amazonas. Porém, o Estado é o destino dos narcóticos. O material segue por rodovias para o Ceará, Rio de Janeiro e Pará, os três principais estados para a facção manauara, Família do Norte (FDN).

Tentando conter o derrame de drogas em seu território, os EUA fecharam um dos principais caminhos da maconha 'skunk', produzida na região de Cauca, na Colômbia, a partir do cruzamento de várias espécies de Cannabis. A erva tem percentuais muito mais altos de substâncias psicoativas que a normal.

A droga saía para o Panamá, pelo Oceano Pacífico e seguia para os EUA. Como a rota foi interrompida, os produtores passaram a escoar a maconha utilizando o Rio Caquetá, que muda de nome quando entra em território brasileiro e passa a se chamar Japurá.

"A região de Cauca é a maior produtora de 'skunk' do mundo. Como houve o reforço dos EUA para que essa droga não chegasse ao Panamá, ela desce e vem para o Brasil. Chega ao Amazonas pelo Rio Japurá, que é um afluente do Solimões, mas pouca coisa fica aqui. A maior parte segue para o Ceará, o Rio de Janeiro e o Pará", explica o delegado Guilherme Torres, diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) da Polícia Civil do Amazonas.

Farcs

A situação também tem se agravado na fronteira por conta dos dissidentes do acordo de desmobilização, desarmamento e reintegração ao mercado de trabalho, assinado em 2016, pelo governo colombiano e membros das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farcs).

A guerrilha tinha cerca de oito mil integrantes. O delegado afirma que além das pessoas que tomaram posição e se negaram a assinar o acordo, várias outras não se adaptaram ao que o governo propôs e estão voltando para a selva. "Estimamos que de duas a três mil pessoas já tenham voltado. Traficam armas e drogas, mas agora com o complicador de estarem fazendo a segurança de carregamentos de drogas que saem da Colômbia para o Amazonas, por essa nova rota do Rio Japurá. Repito, são pessoas conhecedoras de técnicas de guerrilha, armadas com fuzis".

Outra parte desses fuzis, que deveriam ter sido entregues ao governo está sendo vendida. Diferente da droga, o Brasil não exporta armas. O que chega aqui é comercializado dentro do País. "De todo modo, as dissidências das Farcs estão causando problemas enormes ao Brasil. Oficialmente, a guerrilha não existe mais, mas na prática as coisas estão do mesmo jeito", disse Guilherme Torres.

Crise

Uma parte da fronteira Brasil/Colômbia, conhecida como 'Cabeça do Cachorro', por conta do desenho formado pelas linhas limítrofes, é uma preocupação antiga das Polícias da Região Norte. O ponto é cortado pelo Rio Negro e já é utilizado, há muito tempo, para o tráfico de drogas. No entanto, a parte 'de cima' da fronteira, que liga o Brasil a Venezuela, tem gerado novos e maiores problemas.

"A fronteira 'de cima' , que passa por Boa Vista e chega ao Amazonas. O acesso pode ser pelo Rio Branco, ou pela BR-174. O maior problema, que precisa ser resolvido com urgência, são as armas que saem da Venezuela pra cá", afirmou.

Segundo Torres, a crise econômica no país vizinho fez com que muitos imigrantes fossem cooptados por facções criminosas. "Os presídios de Roraima estão lotados de venezuelanos. Logo que eles chegam, antes de terem qualquer oportunidade, são cooptados pelo crime".

Torres explica que a Venezuela nunca foi preocupação para a Segurança Pública do Amazonas por não ser produtora de drogas, nem ter tradição como exportadora de armas, porém a situação econômica do País facilitou a inserção do território em rotas internacionais de tráfico.

"Além da droga que já havia, ainda tem a que vem sendo escoada pela Venezuela. Isso não é um problema só de Roraima ou do Amazonas. A droga, as armas chegam aqui e passam para outros lugares, como o Ceará. Recentemente, uma jovem foi presa em Boa Vista levando armas, de procedência venezuelana, para o Ceará. Isso não é um problema de governo, é de Estado".

O caso a que o delegado se refere é o de Amanda Nascimento Gouveia, 23, detida pela polícia Federal (PF), na Rodoviária Internacional de Boa Vista, no último dia 4 de abril. Ela confessou ser integrante de uma facção criminosa e disse que as seis armas encontradas presas com fita adesiva a seu tórax, seriam trazidas para Fortaleza.

Guilherme Torres lembra que, embora alguns estados estejam sendo atingidos de forma mais direta, a questão deveria ser resolvida por uma metodologia única. "O Ceará não é atingido diretamente pela questão das fronteiras, mas indiretamente sim. As Polícias Civil e Militar do Amazonas apreenderam 17 toneladas de drogas, em 2017. É mais de uma tonelada por mês. Isso foi o apreendido, mas imagine quanto passa e que pode chegar aí", afirmou.

Fábrica

O delegado lembra com preocupação que uma fábrica de produção dos fuzis de assalto Kalashnikov, mundialmente conhecidos pelo poder bélico, deve começar a funcionar na Venezuela, no ano de 2019. O objetivo da empresa russa é que a produção venezuelana atenda o mercado latino-americano.

"Será muita arma para ser controlada. Aliás, não haverá como fazer esse controle. Fatalmente essas armas serão desviadas e o lugar mais fácil para o escoamento delas é o Brasil", argumentou o diretor do DRCO.



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