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A data oficial da Visibilidade Lésbica e Bissexual visa reafirmar o direito de ser. (Foto: JL Rosa)

Dia Nacional: Visibilidade lésbica é determinante para acesso a direitos.

Tendo resistência e apoio como pilares, mulheres homo e bissexuais transpõem barreiras.

29/08/2018

As mãos dadas na rua demonstram laço, afeto. E, de volta, recebem ruptura. A busca por saúde denota cuidado consigo e com a outra. E, em retorno, encontra preconceito, desinformação. Se ser mulher, historicamente, já requer força; amá-las, ato que deveria ser natural, exige luta. Todos os dias. Neste 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e Bissexual, então, são erguidas mais de uma bandeira: a do orgulho e a da busca por reafirmar o direito de ser.

"O que precisamos é dar visibilidade às pautas principais: o direito de estar com a nossa companheira na rua, de ter acesso a atendimento de saúde específico e de poder vivenciar a nossa sexualidade", sintetiza a arte-educadora Deyse Mara, 34, que aponta como "maior desafio diário" justamente o mais básico: viver livre nos espaços públicos da cidade - direito do qual se resguarda a auxiliar de escritório Sheila Ferreira, 36, desde que presenciou junto à filha, também lésbica, duas mulheres serem confundidas com um casal e agredidas.

Receio

"Desde esse dia, minha filha fica receosa de pegar na minha mão. Já eu e minha namorada, tentamos não nos expor tanto. Para passar por isso, é importante o apoio da família: eu posso defender minha filha de agressões, não só verbais, mas físicas, e me sentir protegida também. Com suporte, nada pode nos atingir", resume Sheila, sinalizando a união como pilar da resistência.

"Nossa forma de luta é resistir a esse processo que nos mata cotidianamente. Muitas vezes a própria Polícia, que deveria defender, nos trata diferente. Somos violentadas de forma dupla pelo pensamento 'quer ser homem? Então apanha como homem!'", ilustra Deyse, instrumentistas do coletivo cearense Tambores de Safo, formado por mulheres lésbicas e bissexuais para utilizar a arte como forma de ativismo e "criar espaços para transpor pensamento crítico e fortalecer uma às outras".

Apresentação

Na noite de hoje, em apresentação, na Praça da Gentilândia, no Benfica, o Coletivo integra a programação especial da Prefeitura de Fortaleza em alusão à visibilidade lésbica, que incluiu, ainda, palestras e atendimento específico para esse público, no Hospital da Mulher. O acesso a políticas de saúde que respeitem a diversidade, aliás, ainda é um dos percalços enfrentados por mulheres homo e bissexuais, como aponta a coordenadora executiva da Diversidade Sexual de Fortaleza, Dediane Souza.

"Temos dialogado com a Secretaria Municipal da Saúde para capacitar gestores e profissionais de ponta e criar uma rotina de respeito a essas diferenças. O princípio da igualdade do SUS (Sistema Único de Saúde) é desrespeitado quando médicos desconsideram, no atendimento, as práticas das mulheres lésbicas e bis", pontua, indicando, ainda, a importância do "debate para acesso às políticas integrais de educação e trabalho" para cessar as violências - que podem culminar em morte.

Em 2017, foram registrados 54 lesbocídios no Brasil, o maior número de casos em toda a história das pesquisas nacionais sobre o assunto. O Ceará, aliás, ocupa o topo da lista junto a São Paulo, respondendo por 15% das ocorrências. Os dados são do grupo de pesquisa "Lesbocídio - As histórias que ninguém conta", vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e revelam, ainda, que 55% dos assassinatos motivados por lesbofobia foram por arma de fogo e 23% por facadas.

A crueldade que pessoas LGBTI+ encontram na rua, como ressalta a jornalista e integrante do coletivo "Mães pela Diversidade" no Ceará, Mara Beatriz, deve ser combatida desde casa: com amor. "Você ser lésbica, gay, bi e trans e levar soco na cara na rua, mas chegar em casa e sua família te apoiar, é um alento. Ruim é quando a família é o próprio soco na cara. Nossos filhos são nossos filhos independentemente de qualquer coisa, isso não muda os valores das pessoas".

Entrevista

com Dra. Débora Britto Médica ginecologista e sexóloga

Capacitação dos profissionais é desafio

Quais as especificidades do atendimento a mulheres lésbicas?

Quando penso numa mulher, mas não considero que ela tem práticas sexuais diferentes da heterossexual, eu posso invisibilizar a necessidade de mecanismos de cuidado específicos em relação a DSTs e AIDS, por exemplo. Alimenta-se a crença de que o contato sexual entre mulheres é de menor risco. Então eu padronizo os meus cuidados, e isso pode penalizar essas mulheres.

O que é preciso para um atendimento eficaz?

Um grande desafio é aumentar a quantidade de conhecimento em pesquisas e desenvolver meios mais eficazes de prevenir HIV e AIDS em mulheres lésbicas e bissexuais. O que está colocado hoje é voltado para práticas hegemônicas, heteronormativas. Outro desafio é a capacitação dos profissionais em formação, nas salas de aula, e dos que já estão atuando.

O que falta?

Precisamos romper com essa invisibilidade, porque ela traz um atendimento camuflado para dentro do consultório. Fica o não-dito, o que é mais difícil de ser modificado. A mulher lésbica pode e deve verbalizar a sua orientação sexual, porque isso pode constranger o profissional num primeiro momento, mas vai acordá-lo para a necessidade de estar atento ao cuidado específico a ela.



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