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(Foto: Peter Ilicciev)

"Temos que ter consciência que o coronavírus vai chegar", diz pesquisador da Fiocruz

O pesquisador Rivaldo Venâncio acredita que o número de infectados pelo seja maior e a letalidade menor e alerta para o ajuste no sistema de saúde para enfrentar a epidemia.

Fonte: Diário do Nordeste
08/03/2020

O mundo está em alerta desde a descoberta do novo coronavirus. No Brasil, já são 17 casos confirmados de pessoas com a doença respiratória e o número deve crescer ainda mais. São, conforme o Ministério da Saúde, 768 casos suspeitos, enquanto 480 já foram descartados. No Ceará, nenhuma confirmação da doença que apavora pela rapidez de sua transmissibilidade e letalidade.

Enquanto a ciência busca mais respostas do Covid-19, governos se esforçam para frear a doença. Para o infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz, o Brasil deve viver uma epidemia. Em entrevista, o especialista defende que há um contingente grande de casos que não foram registrados, indicando capacidade maior de transmissibilidade do vírus, mas sinaliza que sua letalidade pode ser menor. Ele também acredita que o perfil de acometidos pelo coronavirus possa ser alterado a partir da chegada em outros locais com perfis populacionais diferentes da China e Itália. Outro alerta é se o sistema público de saúde está preparado, de fato, para mais uma doença.

A Fiocruz vai distribuir kits de diagnóstico do coronavirus para estados brasileiros. Como será a distribuição?

Não será distribuído igualmente entre estados porque o risco de epidemia e vulnerabilidade são diferentes. Indiscutivelmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul receberão mais kits que o Ceará porque o inverno lá tradicionalmente tende a ser mais rigoroso e o número de casos de doenças respiratórias sempre foi infinitamente maior que no Nordeste. Não será um montante igual para todos os estados. Será de acordo com a gravidade e a potencialidade de números de casos. O cronograma começou primeiro com a Fiocruz para dois laboratórios importantes de referência que são o Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, e o Instituto Evandro Chagas, de Belém do Pará. O segundo passo foi alguns países da américa latina, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia? Foram nove países.

Então, a Fiocruz enviou os kits para outros países?

Fez a capacitação primeiro para dominar a técnica para fazer o diagnóstico e eles levaram um pouco de insumos pra lá. Não era o kit como está agora. A partir dessa semana que está findando agora, o kit está pronto e o primeiro estado que fomos foi o Rio Grande do Sul. Não sei te garantir, mas acredito que na sequência será Paraná e Santa Catarina.

E o cronograma prioriza os estados que devem ter o maior número de casos?

O Ministério da Saúde que diz para a Fiocruz como quer o cronograma. A quantidade de kits, tudo quem nos passa é o Ministério.

O que são esses kits e quais exames feitos nesse caso utilizando esses recursos?

Estamos distribuindo kits para diagnóstico molecular. O que significa isso? A partir do material que está no kit é possível identificar nessa amostra de secreção respiratória a presença de fragmentos do vírus. Não é sorologia. Não estamos detectando anticorpos contra o coronavírus. Estamos detectando pedaços do coronavírus. É dirigido para a detecção do vírus. A Fiocruz também está distribuindo para esses laboratórios kits para fazer o diagnóstico diferencial com outros vírus que são muito mais disseminados que o coronavírus, que é o influenza A e B. Os laboratórios também estarão recebendo kits para o diagnóstico diferencial.

Como é feito isso? O diagnóstico diferencial é feito primeiro? Ou acontece ao mesmo tempo?

Depende do caso. A decisão é do laboratório.

Em quanto tempo é possível ter o resultado dos exames feitos com esses kits?

Depende do caso. Quando ele está em condições de entrar na máquina, são coisas de horas. Entre chegar no laboratório, a média é de 24 a 48h.

Esse tempo é bom, pensando que podemos viver uma epidemia e a agilidade é importante para fazer bloqueio e tratamento ao doente?

É excelente! Em poucos dias, não vai se falar mais em bloqueio. Não tem vacina e a tendência é que ele comece a ser transmitido dentro do Brasil. Nem tem uma medicação específica que esse diagnóstico diga: "dê esse medicamento que vai salvar a vida do doente". O cuidado do doente que está grave na UTI independe se é coronavírus ou Influenza.

O que está sendo feito é o necessário para conseguirmos combater uma epidemia no Brasil?

Nós temos uma fase inicial nesse processo todo que é tentar impedir que o vírus entre no país. O esforço gigantesco que a humanidade deve à China foi o sacrifício interno para que o vírus não saísse do País. A população sofreu muito com as restrições de locomoções para cuidar do restante da humanidade. Nesse momento, estamos tentando minimizar ou postergar a entrada, de fato, do vírus no Brasil. As medidas tomadas são adequadas. Daqui a semanas, dias, meses, não tem como garantir, esse vírus muito provavelmente, será transmitido internamente, entre pessoas que nunca saíram dessa comunidade nem que tiveram contato com pessoas que estiveram fora. Aí nossa tarefa é outra. É ter uma rede de atenção primária, de ambulatório, em alguns casos de leitos de terapia intensiva. Esse sistema de atenção precisa estar bem azeitado. Por sorte, a época em que foi deflagrada e reconhecida a emergência em saúde pública de interesse internacional, nós aqui estamos no calor, no verão. Nós, em tese, temos tempo hábil para nos preparar para enfrentar a chegada do coronavírus no Brasil.

O senhor acha que o coronavírus no Brasil terá impacto menor por conta questão climática?

Não. A questão climática é hoje. Ele entrando hoje no Brasil, a disseminação teria intensidade menor que no meio de junho. Nós temos sorte porque os vírus respiratórios gostam de temperaturas mais frias e ambientes mais fechados. Quando chegar o inverno, isso faz com que haja uma possibilidade maior para que o vírus seja transmitido numa velocidade maior.

Aqui no Nordeste, temos essa sorte climática, então?

Sim. Mas, não podemos dizer a mesma coisa para dengue, zika e chikungunya.

O público mais acometido pelo coronavírus é o idoso. É possível que haja uma mudança nesse perfil?

É difícil avaliar. O que está sendo observado agora é em idoso. No entanto, é bom salientar que os dois principais locais de transmissão, Itália e China, tem muitos idosos. A China teve e, durante muitos anos, uma política pública para reduzir a natalidade. A proporção de idosos na China é muito grande. Aqui no Brasil, temos muitas crianças e jovens. O fato de ser marcantemente em idosos, não significa que não possa acometer outros públicos. É uma doença nova. Nós estamos aprendendo a lidar com ela. Não podemos descartar nenhuma hipótese. Não temos elementos, nem evidências científicas para garantir que os únicos vulneráveis são idosos. Teremos que ver na população geral.

Outra questão fundamental e que tem nos assustado é a letalidade. Um número de pessoas que adoecem e o número de pessoas que estão morrendo. Mas o que está sendo divulgado são os casos confirmados. Nós sabemos que há uma quantidade razoável durante essas ondas em que ocorrem essas gripes que, em quadros mais leves, mais brandos, as pessoas não vão a unidades de saúde. A impressão que eu tenho é que há um contingente infinitamente maior de pessoas que já foram infectadas, tiveram manifestação clínica e não foram computadas nesse hall de aproximadamente 95 mil casos registrados

Pode ser que a letalidade seja menor?

Sim, menor. Mas, não tira a gravidade da situação.

Nossa estrutura de saúde está preparada para um possível epidemia?

O que nós temos que ter consciência é que o coronavirus vai chegar. A chegada dele não vai tirar dengue, chikungunia, acidente de trânsito, casos de acidente vascular cerebral, bala perdida. Todos os problemas de saúde que tínhamos, em alguns lugares a superlotação de unidades de saúde, nada disso é substituído. Ao contrário. O corona vai se somar ao quadro já existente. Se estivermos localidades que precisam de leitos de UTI, a chegada do coronavírus poderá exigir um esforço adicional. Não temos como dimensionar qual a necessidade adicional. Mas é importante ter em mente que o corona não substituirá quaisquer dos problemas de saúde pública que enfrentamos na atualidade. Alguns já enfrentamos há décadas e há séculos.


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