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As brincadeiras de reisado de Antônio Luiz de Souza, iniciadas na década de 1980, devem se tornar roteiro turístico do Município. (Foto: Antonio Rodrigues)

Mestres da Cultura Popular: Potengi inaugura seu primeiro Museu Vivo.

O Museu Orgânico Casa do Mestre Antônio Luiz é o primeiro de 16 dedicados aos mestres da cultura popular.

20/09/2018

Potengi. "Me dê uma esmolinha de santo reis", pedia Antônio Luiz de Souza nas brincadeiras de reisado pelas ruas da cidade, na década de 1980. Hoje, a brincadeira, que começou na juventude, deve se tornar roteiro turístico do Município. Na tarde da terça-feira (18), o líder do Reisado de Caretas de Couro viu sua casa, no Sítio Sassaré, se transformar no Museu Orgânico Casa do Mestre Antônio Luiz - o primeiro de 16 espaços dedicados aos mestres da cultura popular no Cariri. Até o fim de 2019, Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Nova Olinda e Milagres também serão contemplados.

Na casa de Antônio Luiz e de sua esposa, a artesã Rosa Pereira, as fotos de apresentação do grupo de reisado estão dispostas na sala e no pequeno corredor. O chão batido, o fogão à lenha e a máquina de costura antiga indicam a simplicidade e, ao mesmo tempo, o aconchego do lugar. Na parede da sala, junto com as imagens de santos, uma foto-pintura do casal e outras duas de seus pais ao lado do violão e triângulo. Acima, com muito destaque, as máscaras de couro de bode da tradição popular.

Cada um desses objetos foi disposto com muito cuidado. Nos museus orgânicos, os visitantes vivenciam o contato com os mestres da cultura, suas família e sua memória. Suas residências terão um acervo vivo, onde é possível interagir e conhecer um pouco da sua arte.

"São vistos como turismo de base comunitária, uma proposta de integrar a comunidade e a própria cidade nesse processo de visitação, com forte potencial de receber escolas, terreiradas, palestras, rodas de conversa, vivências", explica a diretora-presidente da Fundação Casa Grande, Fabiana Barbosa.

Origem

O projeto Museus Orgânicos dos Mestres de Cultura Tradicional do Cariri surgiu a partir do criador da Fundação Casa Grande, Alemberg Quindins, que realizou, em Nova Olinda, as duas primeiras experiências: o Museu do Ciclo do Couro: Memorial Expedito Seleiro e o Museu Casa Antônio Jeremias. Os dois espaços movimentaram ainda mais a quantidade de visitantes na cidade, integrando um roteiro turístico local. Com o sucesso, a proposta foi apresentada ao Serviço Social do Comércio (Sesc), que topou ampliar.

Há dois anos, foi iniciado o processo de curadoria pela equipe do Sesc e pelo própria pessoal da Fundação Casa Grande, visitando as casas de alguns mestres. "Há uma forte parceria da família que se abre para essa proposta. Essa integração é fundamental", explica Fabiana. Neste caso, toda estrutura da casa é analisada, incluindo, as singularidades do grupo de tradição popular. "O mestre Antônio Luiz já recebe, há muito tempo, outras pessoas de outras regiões, que vão conhecer o reisado, tomar café, almoçar na cozinha. Isso vai interferindo na geração de renda da família", completa.

Valorização

O presidente da Fecomércio, Maurício Filizola, que esteve presente na inauguração, acredita que o projeto é uma valorização da cultural local, que é compartilhada com os visitantes. "Cada museu poderá ser integralizado dentro de uma rota turística para que possamos preservar mais a cultura. Se você preserva e não mostra, aquilo não vai adiante. Esse modelo de museu já está sendo visualizado pela direção nacional do Sesc para ser levado para outros estados", antecipa.

O próximo contemplado será o Mestre Françuli, "O inventor do sertão", também de Potengi, que fabrica aviões com folhas de flandres.

Trajetória

De sua mãe, Dona Neuza, Antônio Luiz herdou o gosto pela cultura popular, ingressando, em 1975, no Reisado do Couros que, sete anos mais tarde, lideraria. Em 2010, ele foi reconhecido como Mestre da Cultura Cearense, pela Secretaria de Cultura do Estado. "Nasci e me criei aqui, numa casinha de taipa. Até hoje vivo aqui. Mas já tentei várias artes. Bater pandeiro, motorista, mercante e crediarista, mas minha vida era a roça", lembra.

Seu grupo possui personagens diferenciados de outros reisados, como o Velho Bacurau e a Velha Quitéria, acompanhados pelos caretas, um boi, a burrinha, um jegue, um cavalo, um carneiro e uma ema. Com linguagem própria, o grupo se destaca pelo uso da madeira mulungu, que contribui para os sons e ruídos produzidos. Com oito integrantes, já se apresentou nas cidades vizinhas de Crato, Nova Olinda e Juazeiro do Norte, e também em Fortaleza

Dos 61 anos de idade, 33 foram ao lado de Rosa, que acompanhou, muitas vezes contrariada, a dedicação de Antônio ao Reisado. "Eu gostava, mas tinha vez que pedia para não brincar mais", conta a mulher, um ano mais velha.

Como artesã, fabricando tapetes e almofadas de retalhos, sua trajetória se integra à do mestre da cultura no projeto do Museu. Com o café conhecido como "o melhor de Potengi", os dois se preparam para receber com prosa os visitantes que queiram conhecer suas vidas. "Faz tempo que nós recebemos o povo aqui. De tanto lugar que nem me lembro mais", admite Rosa.



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