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A queda na cobertura vacinal do País põe em xeque principalmente a saúde de crianças até 23 meses de idade. (Foto: José Leomar)

Desinformação desafia metas de cobertura vacinal.

O Ceará, apesar de ser referência nacional, ainda não alcançou as metas neste ano e encontra dificuldades para atingi-las em todos os 184 municípios. O cenário é semelhante ao que acontece nacionalmente.

17/10/2018

O que deveria ser atitude rotineira de cuidado exige, agora, maior esforço por parte de órgãos de saúde: notícias e crenças falsas sobre vacinação têm desestimulado os pais a imunizarem as crianças. O Ceará, apesar de ser referência nas metas, ainda não alcançou a cobertura em vacinas para menores de dois anos, de acordo com dados do Ministério da Saúde (MS) - o que alerta, neste Dia Nacional da Vacinação, para uma questão-chave: prevenir o retorno de doenças já erradicadas no Estado.

Três dos focos da campanha nacional "Porque contra arrependimento não existe vacina", lançada neste mês pelo Ministério da Saúde, são a poliomielite e a rubéola, doenças erradicadas no Brasil, mas cujos vírus ameaçam voltar; além do sarampo, sem casos no Ceará, mas com confirmações e mortes em vários estados brasileiros.

Segundo o infectologista pediátrico Robério Leite, "não existe um controle global das doenças", e a importação de casos de outras localidades, sobretudo do exterior, preocupa o Estado. "Não podemos impedir que alguém doente chegue aqui, mas se tivermos uma cobertura vacinal acima de 95%, como deve ser, impedimos a transmissão", alerta. Conforme o MS, todas as vacinas indicadas para crianças com menos de um ano ficaram abaixo da meta em 2017, menor nível em 16 anos.

68,3% é o índice de cobertura vacinal no Ceará

Considerando nove vacinas obrigatórias para crianças de até 23 meses, o Ceará havia atingido, até agosto, uma média abaixo de 70% de cobertura.

Fake news

A queda na cobertura vacinal no País, segundo a Pasta, põe em xeque principalmente a saúde de crianças de até 23 meses, período em que são aplicadas as principais imunizações. Como consta no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), porém, a vacinação "é obrigatória nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias do País", e quem descumpre está sujeito a "multa de três a vinte salários mínimos".

A dona de casa Gilvania Tabosa, 28, mãe dos gêmeos Benício e Lorenzo, de 1 ano e 5 meses, está longe de temer qualquer punição.

"Sempre procurei informações pela Internet: quais vacinas iam tomar, em que mês, quais as reações. Estão todas em dia. Até a da gripe, que o povo dizia que ia matar a população, eles já tomaram. O principal é manter os nossos filhos saudáveis", reconhece dona Gilvânia.

A disseminação de fake news - as notícias falsas - sobre o assunto tem interferido nas baixas coberturas e dificultado o alcance das metas no Estado, segundo avalia a coordenadora de Imunização da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), Ana Vilma Leite.

"As pessoas davam maior valor à vacinação, hoje é mais difícil. Orientamos que se procure sites de órgãos de saúde. É preciso trocar o medo pela informação", afirma, reconhecendo que alguns municípios cearenses não conseguem alcançar as metas de 80%, 90% e 95% preconizadas para as diferentes imunizações.

A armadilha da desinformação já vitimou a gestora financeira Lany Sabino, 33, que reconhece a importância da imunização - mas abriu mão de vacinar a filha Maria Eduarda, 4, contra a febre amarela por causa de um boato.

"Ouvi dizer que uma criança morreu, aí fiquei com medo. Mas as outras vacinas, desde o primeiro dia de vida, ela toma todas".

O problema, aliás, vai além, como aponta Robério Leite. "A vacina é extremamente eficaz e reduz drasticamente as doenças, então as populações esquecem da gravidade, acham que a doença acabou, e se descuidam. Além disso, é preciso lembrar que o benefício da prevenção supera e muito qualquer risco de eventos adversos".

Informações

O infectologista pediátrico ressalta ainda que, além da população, os profissionais de saúde precisam ser munidos de informações corretas. "É fundamental capacitar profissionais de saúde para evitar falsas informações diante da busca de uma criança por vacina. Às vezes, a criança está com um resfriado comum, uma diarreia, e é impedida de se vacinar. Mas não é qualquer doença que gera contraindicação".

Desinformação

Além dos prejuízos individuais da contração de doenças, o sistema público de saúde também arca com os ônus da desinformação.

"Se não toma vacina, a pessoa fica suscetível ao vírus ou bactéria, podendo agravar o estado de saúde. Então, em vez de o SUS pagar o preço de uma imunização, paga internações, medicamentos, exames, gastos que podem ser evitados", salienta a coordenadora Ana Vilma Leite.

Opinião

Temos um caminho a seguir

Não é fácil traçar uma estratégia para melhorar as coberturas vacinais no Brasil, mas há caminhos a seguir. O primeiro é realizar campanhas de comunicação. Nesse sentido, vale destacar que a participação das escolas e outras entidades da sociedade civil organizada na educação sobre vacinas é fundamental. Todos devem contribuir para que a população, incluindo adolescentes e adultos, entenda que doenças preveníveis por vacina são capazes de matar ou deixar sequelas.

Isabella Ballalai
Presidenta da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)


(Foto: Reprodução/Diário do Nordeste)


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