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Criador dos principais super-heróis da Marvel passou mal em sua casa em Los Angeles. Ele sofria de pneumonia e doenças nos olhos. (Foto: Reprodução)

Stan Lee era uma mistura de Balzac e Homero, diz especialista.

Aos 95 anos, a lenda da indústria de quadrinhos morreu nesta segunda-feira.

13/11/2018

Era apenas um adolescente dos anos 1940 em busca do primeiro emprego, quando o convite de um familiar mudou aquela rotina para sempre. Stanley Martin Lieber (1922-2018) contava que o marido de uma prima, um certo Martin Goodman (1908-1992), então dono da Timely Comics, ofereceu um trabalho no escritório daquela editora. Décadas depois, a mesma Timely transformou-se na gigante Marvel Comics e o jovem repleto de sonhos tornou-se a lenda chamada Stan Lee.

Aos 95 anos, saiu de cena nesta segunda-feira, um dos maiores nomes da indústria dos quadrinhos. Deixa um irretocável legado artístico. Foi determinante na criação do Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Hulk, Thor e muitos outros super-heróis. Lee estabeleceu para muitos a imagem da Marvel. Estabeleceu outro patamar criativo no contato com o público e desenvolveu histórias imortais.

Ao lado de mestres como Jack “King” Kirby (1917-1994) e Steve Ditko (1927-2018), só para citar alguns dos parceiros mais representativos, desempenhou papel fundamental no que os fãs de gibis denominam de a “Era de Prata” (1956-1970). Escrevia, editava e produzia de maneira incansável. É justamente nesse período Pós-Guerra, onde a criatividade de Lee conseguiu ser determinante para uma guinada nas narrativas das HQ’s.

Dialogando diretamente com leitores através das seções de cartas, realizando texto introdutórios das aventuras, Lee atingiu o feito de colocar a Marvel como um dínamo popular das últimas sete décadas. O escritor Sean Howe, autor da biografia “Marvel Comics - A história secreta” (2012) argumentou em linhas gerais de que se a DC é Pat Boone, a Marvel era os Rolling Stones. Ao quebrar paradigmas e fronteiras, esse homem repleto de ideias costurou a maior aventura da vida: ter feito parte, ou pertencer um pouco à vida de cada leitor espalhado pelos quatro cantos do mundo.

“É fácil dizer que Stan Lee é uma mistura de Balzac e Homero do século XX”, defende o professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ricardo Jorge de Lucena Lucas. Leitor ávido dos personagens talhados pelo norte-americano desde a infância, o docente possui ampla pesquisa acadêmica na área dos comics e atua à frente da Oficina de Quadrinhos, projeto de extensão com mais de 30 anos de existência.

“Balzac quando estabeleceu a comédia humana, imaginou vários personagens que migravam entre as histórias. Homero, por sua vez, influencia por ser aquele contador de narrativas épicas. Stan Lee conseguiu construir essa força dentro da cultura de massa”, argumenta o entrevistado. Hoje comum em diferentes mídias, o conceito de “Universo Compartilhado” pensado por ele entre os anos 1960 e 1970 faz parte de uma complexa narrativa, uma grande teia, onde os personagens vão se cruzando.

Excelsior!

“Por mais que a DC Comics tenha feito algo semelhante, mesmo com quadrinhos antigos onde Batman e Super Homem vez ou outra se encontravam, Lee fez do universo compartilhado algo habitual no mercado. Não temos como dizer se foi acidental, mas essa premissa está presente em outros meios. As produções da Pixar e os recentes filmes de M. Night Shyamalan reforçam isso”, situa Jorge.

Ao humanizar seus heróis, lhes dando falhas de caráter e inseguranças que rivalizavam com os super poderes, o autor fez dessas criaturas fictícias personagens dotadas de personalidade. O atrapalhado Peter Parker, por exemplo, tinha problemas reais de todo jovem como a falta de grana e dificuldades na escola.

Essa premissa, resgata o professor, foi um grande trunfo a favor de Lee. Porém, outra decisiva sensibilidade desse artista foi discutir as modificações sociais e políticas do tempo onde produzia. Lee também trabalhou com outros gêneros dentro da sétima arte, como os quadrinhos de Monstro, Guerra, e até histórias de amor.

"Pode não ter sido bem-sucedido nessas outras empreitadas, mas de qualquer modo ele soube captar um sentimento Pós-Guerra, soube captar os movimentos sociais, as demandas dos universitários, dos movimentos negros. Falou diretamente de preconceito e intolerância ao criar os X Men. Percebeu aquela guinada social e teve sacadas muito boas”, finaliza Ricardo Jorge.

Mudanças

Já inserido nos anos 1980, Lee encarou uma maior proximidade dos gibis com outras plataformas. Os quadrinhos começaram a sair das páginas e entrar nas casas dos leitores através da TV. Atento, enquanto produtor, escreveu roteiros e trabalhou em programas como a série live action “The Amazing Spiderman”. O próprio criador realmente estaria nos shows, atuando como narrador das ações.

Lee adorou a ideia de seus quadrinhos serem trazidos à vida com atores e efeitos especiais da vida real. Fez aparições em todos os filmes de seus heróis, incluindo “O Quarteto Fantástico”, “Homem-Aranha”, “Capitão América”, “Hulk”, Homem de Ferro e Vingadores. Criou um programa de TV, “Os Super Humanos de Stan Lee” (2010-2014) onde procurou pelo planeta pessoas com habilidades e "poderes" super humanos.

O pequeno Stanley começou a ler Shakespeare (1564-1616) aos 10 anos, enquanto devorava revistas pulp e os romances de Arthur Conan Doyle (1859-0930), Mark Twain (1835-1910) e Edgar Rice Burroughs (1875-1950). No primeiro trabalho da vida, ganhava US$ 8 por semana como funcionário do escritório.

Como qualquer herói advindo da mente, Lee também foi responsável por falhas, como a discutível relação de pagamentos a artistas e a falta de créditos aos devidos donos pelas criações. Testemunhou quedas no mercado onde atuava, foi além e encarnou como ninguém a filosofia da qual estava inserido. Afinal, grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Stan Lee mostrou a gerações inteiras o quão é divertido sonhar. Um feito único no contemporâneo.



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